segunda-feira, 28 de outubro de 2013

PASTOR RENEO FICHER, INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO, PARTE 5



Introdução ao Novo testamento Parte 5
Pastor Reneo Ficher
Os Pais da Igreja
As citações dos pais antigos são de grande importância como testemunhos do texto grego. Representam o texto que estava em uso na área em que trabalhavam. Suas citações também vieram de uma época de que temos pouca ou nenhuma evidência de manuscrito. As discussões do texto entre eles oferecem uma penetração nas tendências que estavam influenciando a formação do texto. Contudo, deve-se ter em mente que algumas das citações eram soltas, por assim dizer; eles nem sempre faziam suas citações literalmente.
A CLASSIFICAÇÃO DOS MANUSCRITOS
Mediante uma leitura e estudo cuidadosos destes manuscritos, pode-se observar que certos manuscritos têm semelhanças e diferem grandemente dos outros. Estes manuscritos, que são bem semelhantes, são ditos terem um ancestral comum. Ou seja, se vários manuscritos concordam substancialmente uns com os outros, crê-se que foram copiados de um manuscrito mais antigo. Estes manuscritos mais antigos formaram a base para o que os estudiosos agora chamam grupos ou famílias de manuscritos. O nome surge da localidade na qual pensa-se que o texto local originou-se. Após muitos anos, tentando-se chegar a um consenso acerca dos nomes, os seguintes representam os da maioria dos estudiosos modernos e usados pelas Sociedades Bíblicas Unidas.
O Texto Alexandrino — Este foi chamado Texto Neutro por Wescott e Hort. A edição Nestle do Novo Testamento grego refere-se a ele como o Texto Hesíquio ou Egípcio. É geralmente considerado o melhor texto e o mais fiel na preservação do original. Os unciais Vaticanus e Sinaiticus, mais antigos e melhores, pertencem a este grupo. Também o P66 e o P75 atestam este grupo. Isto significaria que o ancestral comum a esta família de textos remontaria, pelo menos, à metade do segundo século. As versões Saídica ou Boaírica freqüentemente contêm leituras semelhantes a este grupo.
O Texto Ocidental — Este grupo surgiu na Europa ocidental e no norte do Egito. Foi usado por Marcião, Tatiano, Irineu, Tertuliano e Cipriano. Seu principal testemunho de manuscrito é o códice uncial Bezae do quinto e sexto séculos. Para Marcos 1-5, o códice Washingtonianus é Ocidental também. As versões no Latim Antigo incidem principalmente neste grupo. Dois fragmentos de papiro do final do terceiro século, P38, P48, também têm leituras provenientes desta família.
O Texto de Cesaréia — Parece q41ue este texto originou-se no Egito, e o códice de papiro p45 é a causa desta conjectura. Uma cópia adicional foi depois levada (talvez por Orígenes) para Cesaréia, onde tornou-se a ancestral para outras cópias. Foi usada por Orígenes, enquanto esteve em Cesaréia, Eusébio e mais tarde por Cirilo de Jerusalém e pelos armênios. O códice uncial recente, Koridethi, é deste grupo.
O Texto Bizantino — A maioria dos manuscritos incide neste grupo. Ele mostra uma lucidez marcante e inteireza, em contraposição aos outros três grupos. Provavelmente, surgiu em Antioquia, sendo levado para Constantinopla e depois espalhado pelo Império Bizantino. Sua melhor testemunha é o códice Alexandrinus, mas somente nos Evangelhos. Os unciais posteriores e quase todos os minúsculos são desta família. Desde a época do sexto ou sétimo século, este texto foi considerado como o texto autorizado e foi o que mais largamente se difundiu.
O USO DA CRÍTICA TEXTUAL
Ê o propósito do crítico textual reproduzir, tão aproximadamente quanto possível, o texto original do autor. Ao usar-se todo o material disponível, há etapas a serem seguidas, para chegar-se a uma conclusão razoável. Isto é chamado a Práxis da Crítica Textual. O seguinte é um breve resumo deste procedimento.
EVIDÊNCIA EXTERNA
Aqui os manuscritos são consultados individualmente e em grupos. Nem o número de documentos nem a idade dos manuscritos é de im­portância primária; é a idade do texto que é primordial. Em geral, os manuscritos mais velhos podem ser mais isentos de erros de transcrição, mas este nem sempre é o caso. De maior importância que a idade e o número são a data do texto e o cuidado tido pelo copista. Este é o alinhamento de evidência para se pesar a evidência.
EVIDÊNCIA INTERNA
Aqui é feita uma tentativa de olhar-se a leitura divergente do ponto de vista do escriba que escreveu o manuscrito. Após um tempo de trabalho diligente sobre um manuscrito, certas tendências podem ser observadas no estilo de um copista. Na avaliação destas qualidades internas, esta­belecem-se algumas normas.
1. Erros de Transcrição — Isto tem a ver com o problema do ponto de vista do escriba. Há, antes de tudo, erros acidentais do olho, ouvido, memória, julgamento, pena, fala, etc. Depois há alterações intencionais, feitas por causa de razões lingüísticas ou retóricas, esclarecimento de algumas dificuldades históricas, corrupções harmonísticas, correções doutrinárias, corrupções litúrgicas, etc. Geralmente, o procedimento é aceitar-se aquela leitura que explicaria a origem das outras; aceitar-se a variação mais difícil; aceitar-se a leitura mais curta.
O diagrama a seguir indica como os grupos ou famílias vieram a existir. Deve-se ter em mente que cada estágio sucessivo não ocorreu, necessa­riamente, no mesmo ano ou até no mesmo século.
As versões entrariam por volta do terceiro estágio e repetiriam o processo na língua. Desta maneira, a Siríaca Antiga, por exemplo, seria uma tradução da F, enquanto a Peshitta e a Filoxiana-Harkleana repre­sentariam L ou M no diagrama. O testemunho dos pais poderia incidir em qualquer um destes estágios, dependendo da precisão deles ao citar o texto.

No diagrama, a seguir, é mostrado que nem mesmo o terceiro nível acima está puro de influências de outros textos. Isto explicará por que tantos manuscritos têm textos misturados ou corrompidos.
2. Erros Intrínsecos — O propósito disto é encarar o problema do ponto de vista do autor e julgar que interpretação faz melhor sentido no contexto e está em harmonia com as conhecidas formas e estilo do escritor. O grande perigo aqui é optar pelo que é melhor para a crítica, em vez de para o autor, a fim de ler o nosso ponto de vista no texto. Este "Cânon Áureo" tem mais valor negativo que força positiva. Este tipo de prova é o que menos deve ser usado na avaliação de interpretação variada.

PROCEDIMENTO APROPRIADO NA TEXTUAL
I        — Afirmação do Problema
II    — Elaborar Aparato Crítico
III — Evidência Externa
1. Manuscrito Individual
1) Identificar e Avaliar
2) Esboçar Conclusão Experimental
2. Grupos
1) Avaliar
2) Esboçar Conclusão Experimental
3. Famílias
1) Avaliar
2) Esboçar Conclusão Experimental
4. Versões Principais
1) Identificar e Avaliar
2) Esboçar Conclusão Experimental
5. Versões Secundárias
1) Identificar e Avaliar
2) Esboçar Conclusão Experimental
6. Pais
1) Avaliar
2) Esboçar Conclusão Experimental
7. Conclusão Experimental Para Evidência Externa
IV — Evidência Externa
1. Transcritiva
1) 43Acidental
2) Intencional
3) Conclusão Experimental
2. Intrínseca
1) O Que Ajusta Melhor Contexto e Autor
2) Conclusão Experimental
3. Conclusão Experimental Para Evidência Interna
V — Sumário e Conclusão
Pode ser verificado, de todas estas informações, que a primitiva história textual do desenvolvimento do Novo Testamento grego era mais complicada do que se supunha. As primitivas edições impressas do Novo Testamento grego tiveram acesso somente aos poucos manuscritos bizan­tinos posteriores e às versões, principalmente a Vulgata. Depois da primeira edição do Novo Testamento de Erasmo, editado em 1516, a maioria dos manuscritos mais antigos foi descoberta. Cada ano novas descobertas são feitas, e estas precisam ser confrontadas e incorporadas no texto crítico grego. É tarefa constante dos estudiosos sérios do Novo Testamento estarem continuamente atentos às novas descobertas e seu impacto sobre o texto. O objetivo é conseguir que o texto reproduza fielmente o texto do autor.

O PROBLEMA SIN
ÓPTICO
Os três primeiros Evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) apresentaram uma área de incerteza nos estudos do Novo Testamento. Estes livros foram chamados os "Evangelhos Sinópticos", desde que o termo foi pela primeira vez usado por J.J. Griesbach, em sua edição do Novo Testamento grego, em 1774-1778. A palavra grega sunoráo significa "ver junto", e chama a atenção para o material comum a todos os três e indica que eles são melhor compreendidos quando estudados juntos. Mesmo uma leitura casual dos quatro primeiros livros do Novo Testamento mostrará que os três primeiros têm muita coisa em comum (representando uma tradução comum) e o quarto parece pertencer a outra tradição distinta.
O estudo das relações literárias dos Evangelhos é denominado Crítica Literária. Como se relaciona com os Evangelhos Sinópticos, ele é o estudo dos fenômenos de concordâncias e discordâncias e a mistura destes ele­mentos. Estas relações literárias provaram ser mais complicadas que pri­meiramente imaginadas. Até cerca da metade do século dezoito, a Igreja in­teressou-se por explicar as diferenças encontradas nos Evangelhos. Depois a ênfase foi mudada, numa tentativa de explicar-se as semelhanças.
Estas concordâncias, além disso, não são necessariamente "identidades"; impor­tantes diferenças aparecem dentro de estruturas semelhantes. Para esclare­cer estas relações, é necessária uma reconstrução, tanto histórica quanto analítica, do processo inteiro, desde a época de sua origem até sua incorporação dentro dos livros do Novo Testamento.
A análise das origens do material antes do primeiro documento escrito é denominada Crítica da Forma. A investigação das circunstâncias em que os atuais Evangelhos usaram um ou mais documentos escritos é denominada Crítica da Fonte, e o modo pelo qual os autores dos livros aceitos adaptaram as "fontes" para apresentarem seu argumento teológico é denominado Crítica da Redação.
DEFINIÇÃO DO PROBLEMA SINÓPTICO
O problema Sinóptico entra em foco quando a seguinte estatística é observada: entre 94 e 95 % do Evangelho de Marcos é reproduzido em Mateus e Lucas. Dos 661 versículos contidos em Marcos, todos, exceto cerca de 30, são encontrados nos outros dois Sinópticos. A substância de 606 versículos pode ser encontrada em Mateus (correspondendo a 500 por causa de diferente disposição do conteúdo). Lucas reproduz cerca de 320 versículos de Marcos, incluindo 24 que Mateus não usou. Isto significa que, dos 661 versículos contidos em Marcos, somente 30 não aparecem nos outros dois Sinópticos. B.F. Westcott (An Introduction to the Study of the Gospels — Uma Introdução ao Estudo dos Evangelhos — p. 191), em 1875, deu um quadro desta informação numa base percentual:
Peculiaridades Coincidências
Marcos                                  7                                             93
Mateus                          42                                                  58
Lucas                            59                                                  41
João                             92                                                  8
João está incluído para mostrar quão grande é a divergência de material entre ele e os Evangelhos Sinópticos. O quadro acima não significa que as coincidências estejam em ordem verbal exata, mas, sim, que as coincidências são tão estreitas, que tanto mostram uma relação quanto uma origem comum.
Ainda há outra observação a ser feita. O quadro acima expressa as relações ou coincidências entre os quatro Evangelhos, usando Marcos como a unidade básica. Isto significa que 93 % de Marcos é encontrado ou em Mateus ou em Lucas, mas somente 58 % de Mateus e 41 % de Lucas é encontrado em Marcos (e apenas 8 % de João é comum a Marcos). O quadro não expressa a relação entre os outros Evangelhos (Mateus e Lucas ou João e Lucas).
Quando todo o material comum aos três Sinópticos é extraído, há cerca de 250 versículos que são partilhados por Mateus e Lucas e não são encontrados em Marcos. Isto deixa cerca de 300 versículos em Mateus (de 1.068) e 580 versículos em Lucas (de 1.151) que não estão em comum com Marcos ou um com o outro.
As concordâncias e coincidências são bem impressivas no Novo Testa­mento grego. Versículos idênticos nos três Evangelhos e idênticos nos dois Evangelhos são imediatamente evidentes. A concordância, em um grande número de casos, é encontrada no vocabulário e na ordem de palavras.
Em outros exemplos, são usados sinônimos, e é observada a ordem invertida. Também observa-se que a ordem geral da narrativa de eventos é seguida. Quando um dos outros dois Evangelhos diverge da ordem de Marcos, o outro é fiel a Marcos. Mateus e Lucas dificilmente concordam juntos em contraposição a Marcos.
Este é o Problema Sinóptico. Ê tarefa do estudante do Novo Testamento tentar explicar as semelhanças e divergências nos três Evangelhos. Por que eles têm tantas coisas em comum, e como explicar as diferenças?
É difícil, para muitos, aceitar a idéia de que os escritores dos Evangelhos poderiam ter usado histórias tanto escritas quanto orais acerca da vida de Cristo. Sua concepção dos Evangelhos é que o Espírito Santo deu o material a cada um dos escritores de maneira mecânica; ou seja, os autores dos Evangelhos eram simplesmente penas nas mãos do Espírito Santo. Contudo, o prefácio do Evangelho de Lucas afirma muito claramente que ele havia investigado muito inteiramente o material a ser escrito. O texto do prefácio de Lucas (1:1-4) é:
&"Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, segundo no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também a mim, depois de haver investigado tudo cuidadosa­mente desde o começo, pareceu-me bem, ó excelentíssimo Teófilo, escrever-te uma narração em ordem, para que conheças plenamente a verdade das coisas em que foste instruído."
Porque Lucas expressamente afirma que ele próprio havia verificado com "testemunhas oculares" e que outros já haviam empreendido a tarefa de escrever o Evangelho. Isto, portanto, indicaria que Lucas teve acesso a "fontes" tanto orais quanto escritas. Deve ser presumido, então, que os outros escritores dos Evangelhos também usaram "fontes" para sua obra. A tarefa de tentar-se determinar estas fontes é denominada Crítica da Fonte.
CRÍTICA DA FONTE
A Tradição Oral — Nos primeiros anos da igreja cristã, o evangelho foi transmitido e preservado oralmente. Como os primeiros discípulos esperavam para breve a volta do Senhor ressurreto, eles não sentiram nenhuma necessidade de escrever uma narrativa do testemunho apostó­lico. Foi somente depois que os apóstolos e outras testemunhas começa­ram a morrer e ser mortos, que se sentiu ser necessário preservar, em forma de escrita, o teor do ministério do Senhor Jesus. Foi durante esse período que surgiu o que é denominado a Tradição Oral do evangelho.
A pregação e ensino dos apóstolos e outros líderes da igreja, lógica e naturalmente, dariam uma forma fixa às narrativas acerca da vida de Jesus. Essa "tradição fixa" explicaria a relação estreita dos Sinópticos. As diferenças são explicadas como sendo contribuições de pessoas indi­viduais, aumentando a informação mais geral, que pertencia à igreja como um todo. Então, também, o propósito de cada autor deve ser tido em mente, à medida que ele reuniu e colecionou seu material.
Há, contudo, demasiadas dificuldades, ao tentar-se explicar a natureza básica dos Sinópticos, no terreno em que o evangelho foi preservado, em detalhes, por memória, durante um longo período de tempo. O pro­blema é aumentado quando a "memorização" tinha que ser feita, à medida que o Evangelho se propagava tão rapidamente por todo o Império Romano e estava sendo traduzido para tantos idiomas diferentes. A supervisão para tal tarefa estonteia a mente. Um estudo maior, da Tradição Oral, será feito, com o subtítulo de Crítica da Forma.
Os pais primitivos da Igreja criam que os Evangelhos surgiram inde­pendentes um do outro. Pela época do quarto século, contudo, ficou reconhecido que os Sinópticos eram, de algum modo, interdependentes. Por causa do fato de Mateus encabeçar a lista no cânon, Agostinho pensou que fora escrito primeiro e que Marcos e Lucas estavam, de algum modo, relacionados com ele. Dizia que Marcos era uma forma resumida de Mateus, e que Lucas era dependente tanto de Mateus quanto de Marcos. Deve ser lembrado que este conceito surgiu porque Agostinho estava cônscio de que o Evangelho de Mateus era bem conhecido no segundo século e era sempre alistado em primeiro lugar, em toda lista dos livros do Novo Testamento.
A Teoria de Dois Documentos — O ponto de vista de Agostinho foi mantido até 1835 (com algumas variações menores), quando Karl Lach-mann provou a primazia de Marcos, simplesmente por razões lingüísticas. Algumas destas foram apresentadas anteriormente, mas talvez esclareces­se as questões relacioná-las mais uma vez:
1. Mateus reproduz 90% do assunto de Marcos, em lingua­gem grandemente idêntica à de Marcos. Lucas faz o mesmo, por bem mais que a metade de Marcos.
2. Numa seção média que ocorre nos três Evangelhos, a maioria das palavras reais usadas por Marcos é reproduzida por Mateus e Lucas, seja alternadamente ou por ambos juntos.
3. A ordem relativa de incidentes e seções em Marcos é, em geral, apoiada tanto por Mateus como por Lucas; onde um deles abandona Marcos, o outro é geralmente encontrado apoiando-o.

4.  O caráter primitivo de Marcos é mostrado ainda: (a) pelo uso de expressões prováveis de causar ofensa, que são omitidas ou atenua­das nos outros dois Evangelhos; (b) pela rudeza do estilo e gramática, e a preservação de palavras aramaicas.
5.  Pela maneira como o material de Marcos e o que não é de Marcos são distribuídos em Mateus e Lucas, respectivamente, parece que cada um tinha diante de si o material de Marcos, num único documento, e confrontava-se com o problema de combinar este com material de outras fontes.
6.  Comparando Mateus e Marcos em material comum a cada, vê-se que Mateus apresenta, invariavelmente, a narrativa mais curta; daí, Mateus reduziu Marcos, ao invés de vice-versa.
Bernard Weiss (Commentary on Mark and Luke — Comentário sobre Marcos e Lucas — 1901) seguiu Lachmann, apoiando Marcos como o primeiro dos Sinópticos. Ele também propôs uma segunda fonte, conten­do o material comum a Mateus e Lucas. Esta fonte foi chamada "Q", da palavra alemã Quelle, que significa "fonte". Não houve acordo unânime quanto ao conteúdo da "Q", e um dos passatempos favoritos dos estudiosos do Novo Testamento é a reconstrução do documento "Q". O quadro a seguir é apresentado para indicar algo do escopo desta "fonte". A ordem dada é a de Mateus; os números acompanhados de um período representam a ordem como a passagem aparece nos respectivos textos.


Mateus
Conteúdo
Lucas
1.
3:7-12
A Pregação de João
1.
3:7-9,16
2.
4:2-11
As Tentações
2.
4:2-13
3.
5:3-6,11,12,39-42, 45-58
Sermão da Montanha I
    3.
6:20-23,27-30, 32-36
4.
5:15; 6:22,23
Luz
15.
11:33-35
5.
6:9-13
A Oração do Pai Nosso
10.
11:1-4
6.
6:25-33, 19-21
Ansiedade por Bens Materiais    18.
12:22-34
7.
7:1-5,16-21,24-27
Sermão da Montanha II
4.
6:37,38,41-49
8.
7:7-11
Acerca da Oração
11.
11:9-13
9.
8:5-13
O Centurião de Cafarnaum
5.
7:1-10
10.
8:19-22
Natureza do Discipulado
7.
9:57-60
11.
9:37-10:11
Envio dos Setenta
8.
10:1-12
12.
10:26-33
Exortação à Confissão
17.
12:2-10
13.
11:2-19
A Pergunta de João
6.
7:18-35
14.
11:21,23,25,26
Gritos de Ais e Alegria
9.
10:13-15,21,22
15.
12:22-30
Beelzebu
12.
11:14-23
16.
12:38-42
Recusa de Dar Sinais
14.
11:29-32
17.
12:43-45
Retorno de Demônios
13.
11:24-26


18  13:31-33                    Mostarda e Fermento                      20. 13:18-21
19   23:4,23-25,29-36     Contra os Fariseus                  16. 11:39-52
20   23:37,38                   Lamentação sobre Jerusalém       21. 13:34,35
21  24:26-28,37-41         O Tempo do Fim                    22. 17:22-37
22   24:43-51                    Vigilância                                        19. 12:39-46
                            23  25:14-30                    Parábola dos Talentos                      23. 19:11-28
Estes versículos são os aproximadamente 250 que são partilhados por Mateus e Lucas, do material que não é de Marcos. Alguns estudiosos acham que esta é a Logía a que Papias se referiu como tendo sido escrita por Mateus em aramaico. A maioria dos estudiosos, todavia, rejeita isto.
A Teoria de Dois Documentos é a solução mais fácil e mais simples para o problema dos Sinópticos. Lembre-se que esta teoria fala em termos de documentos "escritos". Mas há algumas perguntas que ainda não foram satisfatoriamente respondidas. Dos 1.068 versículos de Mateus, talvez cerca de 500 vieram de Marcos e em torno de 250 da "Q"; isto deixa cerca de 300 versículos não explicados. Em Lucas, com a mesma lógica, restam cerca de 580 que não são encontrados nem em Marcos nem na "Q".
Alguns argumentaram que o "Q" foi um documento muito maior que aqueles versículos encontrados em Mateus e Lucas, e que os autores, além de usar os versículos partilhados, escolheram os versículos peculiares ao seu Evangelho, dentre o restante deste documento. Esta opinião tem muito pouca aceitação hoje. Ela criaria um documento desajeitado, e o vocabulário e a gramática do material não partilhado são diferentes demais para proporem uma mesma origem.
A Teoria de Documentos Múltiplos — Como a Teoria de Dois Do­cumentos relegou todo o material não encontrado nem em Marcos nem em "Q" a fontes orais, não demorou muito para que os estudiosos começas­sem a propor que Mateus e Lucas tiveram acesso a outros documentos escritos. Após muitos anos, testando-se e tentando-se diferentes idéias, é geralmente aceito que houve, pelo menos, quatro documentos escritos usados na produção dos Evangelhos Sinópticos.
Basicamente, estes documentos seriam: Marcos (o material partilhado pelos três Sinópticos), a "Q" (material que não é de Marcos, partilhado por Mateus e Lucas), "M" (material encontrado somente em Mateus) e "L" (material encon­trado somente em Lucas). Esta parece ser a solução mais simples do problema dos Sinópticos. A prova da existência de tais outros documentos é, naturalmente, impossível. Por esta razão, muitos estudiosos não se atêm a esta idéia.
Para ter uma visão do problema em foco, o leitor deve recorrer ao quadro precedente, em que a "Q" é apresentada como aceita por muitos estudiosos, e ao quadro a seguir, que indica os versículos que são peculiares a Mateus e Lucas.

            Mateus ou "M"                        Lucas ou "L"
1:1-2:23                          1:1-2:52
5:1,2,7-10,13,14,16-38   3:10-15
6:1-8,14-18,23,24,34      4:16-30
7:6,12-15,22,23,28,29    5:1-11
8:14-18,23-34                 7:11-17,36-50
9:18-36                           8:1-3
10:12-25,34-42               9:51-56
11:1,20,24,27-30            10:1,17-20,29-42
13:16,17,36-52               11:5-8
17:24-27                         12:13-21,49-56
18:10-35                         13:1-17,31-33
20:1-16                           14:1-14,28-33
21:28-32                         15:1-32
22:1-14                           16:1-15,19-31
23:38,39                          17:7-21
24:29-36,42                    18:1-14
25:1-13,31-46                 19:1-10,39-44
27:3-10                           22:15-18,27-38
28:16-20                         23:6-16,27-32,40-43
24:13-49,50-53
Para o material que é comum aos três Sinópticos, o leitor deve recorrer a qualquer boa Harmonia dos Evangelhos (como a da autoria de A.T. Robertson).
Conclusões — Do material acima, é, agora, possível tirar-se algumas conclusões exploráveis.
1. É quase universalmente aceito que o Evangelho de Marcos é o mais antigo dos Sinópticos.
2. É quase universalmente aceito que tanto Mateus como Lucas fizeram uso de Marcos, na composição de seus escritos. Se eles utilizaram, ou não, nosso Marcos atual é debatido por alguns. Estes desejariam falar acerca de uma edição anterior, chamada "Ur-Marcus". Esta idéia não foi aceita pela maioria dos estudiosos do Novo Testamento.
3. É quase universalmente aceito que Mateus e Lucas usaram uma segunda fonte. Este material foi chamado "Q". Deve-se ter em mente, contudo, que o "Q" não pode ser estabelecido com certeza. Há muito desacordo acerca de seu conteúdo, mas a presença de tal documento ajuda na explicação da existência de material que não é de Marcos, o qual é comum a Mateus e Lucas.
4. É quase universalmente aceito que houve outras fontes para a com­posição de Mateus e Lucas. Este material foi designado como "M" (encontrado somente em Mateus) e "L" (encontrado somente em Lucas"). Se estas duas fontes foram orais ou escritas, não foi determinado satis­fatoriamente. A chamada Teoria de Quatro Documentos foi pela primeira vez proposta por B.H. Streeter, em The Four Gospels — Os Quatro Evangelhos — em 1924. Vários estudiosos propuseram outras idéias acerca de fontes, mas esta de Streeter é a mais simples e causa menos problemas.
5.         A tarefa da Crítica da Fonte está longe de estar terminada. A discussão acima é somente acerca de teorias. Existe um documento usado como uma fonte, o Evangelho de Marcos. Todas as outras idéias não são mais que conjeturas, nas tentativas de satisfazer às perguntas sobre a composição dos Sinópticos.
6.        O gráfico, a seguir, talvez auxiliará o leitor a lembrar-se da Teoria de Quatro Documentos.

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