segunda-feira, 28 de outubro de 2013

PASTOR RENEO FICHER INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO, PARTE 4



Introdução ao Novo testamento Parte 4
Pastor Reneu Ficher
COLEÇÕES ANTIGAS
Conforme observado acima, em II Pedro 3:15, 16 há uma referência às cartas de Paulo. Pela metade do primeiro século, e especialmente para o fim daquele período, o processo de agrupamento, guarda e cópia dos escritos apostólicos se havia iniciado. É evidente que os escritores cristãos do final do primeiro e início do segundo séculos estavam familiarizados com a maior parte das cartas.
Quanto aos Evangelhos, contudo, não há evidência clara de que os quatro inspirados eram conhecidos por todos os escritores primitivos. Papias (c. 130) descreveu os Evangelhos de Mateus e Marcos, mas silencia acerca de Lucas e João. Justino Mártir (c. 155) sabia acerca dos Evangelhos escritos, mas não menciona nenhum pelo nome, tampouco, o número de Evangelhos. Contudo, a coleção de nossos quatro Evangelhos ocorreu antes de 170, porque nesse ano Tatiano, discípulo de Justino Mártir, editou seu Diatessáron, uma harmonia da vida de Cristo tirada dos quatro Evangelhos, os quais ele menciona pelo nome.
A primeira coletânea de livros que pode ser propriamente referida como um esforço definido no sentido de um "Novo Testamento" foi compilada pelo herege Marcião (c. 145). Rejeitando completamente o Velho Testamento e tudo o que era judaico, ele aceitou somente o Evangelho de Lucas (que fora purgado de idéias incondizentes com sua heresia) e dez cartas de Paulo: Gálatas, I e II Coríntios, Romanos, I e II Tessalonicenses, Laodicenses (Efésios?), Colossenses, Filipenses e Filemom.
A primeira tentativa séria no sentido de uma coletânea autorizada recebeu ímpeto através da obra de Marcião. Foi em reação a essas coletâneas, feitas pelos grandes líderes hereges do segundo século, que as igrejas começaram a unir-se, para definir que livros eram realmente autorizados e quais deviam ser rejeitados como espúrios. Pelo último quartel do segundo século, portanto, na maior parte, os livros do Novo Testamento eram conhecidos e estavam sendo usados com autoridade escriturística igual à do Velho Testamento, e a idéia de um cânon estava emergindo.
Outros escritores cristãos de importância, nesse período inicial, incluem Clemente de Roma, que escreveu a carta à igreja em Corinto por volta do ano 95. Ele faz menção da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios e mostra algum conhecimento dos ensinos de Jesus. A Epístola aos Hebreus era também conhecida.
Inácio, Bispo de Antioquia, foi martirizado em Roma durante o reinado de Trajano (96-117). Escrevendo várias cartas, ele faz menção de alguns ensinos de Jesus e está familiarizado com algumas cartas de Paulo. Contudo, em nenhum lugar dá ele, a essas cartas, autoridade igual à do Velho Testamento.
Policarpo, por volta de 115, abunda em palavras e pensamentos do Novo Testamento. Pelo uso de uma fórmula introdutória, ele parece colocar os escritos com os quais está familiarizado em igual autoridade com o Velho Testamento.                                                                \
O APARECIMENTO DE UM CÂNON
         Por volta de 180, a Igreja de Roma compilou uma relação de livros, conhecidos agora como o Cânon Muratoriano. Embora o manuscrito existente seja fragmentário, parece que a lista original continha os quatro Evangelhos, treze cartas de Paulo, as três cartas de João, Judas e Apocalipse. Somente as cartas de Tiago e Hebreus estão definidamente ausentes. A heresia de Marcião é referida pelo nome e fala acerca de sua mutilação do Evangelho de Lucas. O nome, Cânon Muratoriano, vem de um bibliotecário chamado Muratori, que descreveu o documento do oitavo século (fragmento) em Milão, Itália, no século dezoito.
É interessante observar também que esse documento dá alguns princípios para a seleção e rejeição dos escritos. O primeiro, naturalmente, é a autoria apostólica. Os livros tiveram que ser escritos por um apóstolo ou por alguém estreitamente associado com ele. Um segundo princípio é a ortodoxia, seguida de perto pelo terceiro, a antigüidade. Estes três princípios foram usados para determinar a legitimidade dos escritos que haviam sido colecionados pelas igrejas.
Outras vozes começaram a se pronunciar acerca das coletâneas de suas igrejas também. Pelo menos três grandes homens do segundo século levantaram suas vozes para proclamar alguns escritos como verdades aceitas e outros como espúrios. O valor de seu testemunho é que eles representam seções geográficas largamente separadas da igreja.
Irineu (que morreu c. 190) era da Ásia Menor, onde fora um discípulo de Policarpo. Ele foi para Roma por um certo tempo e então tornou-se Bispo de Lião na Gália. Seu predecessor, Potino, havia-se associado com cristãos dos dias apostólicos. Em sua obra principal, Contra as Heresias, ele é bem claro acerca do quádruplo Evangelho. Ele cita como sendo autorizados todos os livros do Novo Testamento, exceto Filemom, Tiago, II Pedro, II João e Judas. Ele colocou Hebreus numa posição subcanônica. Contudo, aceitava "O Pastor de Hermas" como escritura. A omissão dos poucos livros pode ter sido acidental, pois ele não dá uma lista "formal" daqueles que já reconhecia como escritura.
Clemente de Alexandria (que morreu por volta de 215) escreveu comentários sobre todos os livros do Novo Testamento, segundo Eusébio. Clemente claramente distinguiu os quatro Evangelhos dos Evangelhos Apócrifos. Ele aceitava como escritura também: I Clemente (carta de Clemente de Roma aos Coríntios), O Didaquê dos Doze Apóstolos, a Carta de Barnabé, o Pastor de Hermas, O Apocalipse de Pedro e A Pregação de Pedro.
Tertuliano (que morreu por volta de 220), de Cartago, na África, citou todos os livros do Novo Testamento, exceto II Pedro, II e III João e Tiago. Ele recusou-se a usar qualquer outro Evangelho que não os quatro que a igreja reconhecia como inspirados e autorizados. Ele dizia que Barnabé escreveu o livro de Hebreus. Sendo o primeiro escritor cristão a usar o latim extensivamente, ele também foi aparentemente o primeiro a usar o termo "Novo Testamento" para a coletânea de escritos cristãos recebidos pelas igrejas.
Deve ser levado em consideração o fato de que muitos dos cristãos primitivos não falavam nem aramaico nem grego. O povo da Síria falava o siríaco, e durante o segundo século os Evangelhos já haviam sido traduzidos para essa língua (segundo o Diatessáron de Tatiano e os manuscritos conhecidos como o Antigo Siríaco). Não há nenhuma evidência de que o restante do Novo Testamento existia durante aquela época, mas o silêncio não indica que os outros livros eram desconhecidos. De fato, as últimas traduções siríacas dão evidência de que aqueles outros livros eram conhecidos e haviam sido traduzidos.
No Egito, a língua nativa era conhecida como o cóptico. A igreja cóptica é muito antiga e há traços de traduções do segundo século. Embora os manuscritos existentes provenham de períodos posteriores, eles atestam a respeito de um texto mais antigo. Contudo, seria presunção insistir-se num Novo Testamento completo em cóptico durante o segundo século.
Conforme afirmado acima, Tertuliano de Cartago foi o primeiro escritor cristão a usar o latim extensivamente. Sabe-se, todavia, que Jerônimo terminou a VULGATA no quarto século (o Novo Testamento em 390 e o Velho Testamento em 405), porque os manuscritos mais antigos, em latim, precisavam de revisão. Seria bem lógico presumir que Tertuliano teve acesso ao seu "cânon" tanto em grego como em latim e talvez em cóptico.
A FIXAÇÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO
         Durante o terceiro século, mais atenção foi dada à seleção dos escritos apostólicos que poderiam ser usados pelas igrejas para fins de doutrina.
Orígenes de Alexandria e Cesaréia (c. 185-254) sucedeu Clemente como o diretor da escola de Alexandria. Mais tarde mudou-se para Cesaréia. De anos de estudos com Clemente e de suas próprias investigações, ele tornou-se capaz de falar com autoridade acerca dos livros que eram comumente aceitos pelas igrejas. Ele foi o primeiro a mostrar uma consciência acerca de problemas sobre alguns livros usados por vários grupos.
Ao discutir os livros, ele dividiu tudo em três categorias: aceitos, duvidosos e rejeitados. Ele foi o primeiro escritor a mostrar definidamente um conhecimento de todos os livros do Novo Testamento que estão no presente cânon, incluindo Tiago, II Pedro e III João. O próprio Orígenes aceitava todos os vinte e sete livros, mais os livros de Barnabé, o Didaquê e o Pastor de Hermas. Contudo, indicou que havia alguma dúvida acerca de Hebreus, II Pedro, II e III João e Judas. Todos os outros livros foram rejeitados como inconvenientes para doutrina.
Seguindo-se a Orígenes, Dionísio de Alexandria (que morreu em c. 264) foi a outra grande figura do terceiro século na avaliação crítica da dignidade dos escritos cristãos. Embora ele não negasse a canonicidade do Evangelho de João e do Apocalipse, ele negou que o apóstolo João pudesse ter escrito ambos. Ele provocou uma controvérsia acerca da autoria do Apocalipse que ainda se mantém até hoje.
Eusébio de Cesaréia (c. 270-340) tinha, como Bispo de Cesaréia, a maior biblioteca de escritos cristãos do mundo. Ele fora pupilo de Panfilo (um discípulo de Orígenes), que fundou a grande biblioteca teológica em Cesaréia. Eusébio foi o primeiro grande historiador eclesiástico dos primeiros séculos. Em seus seis volumes existentes, ele preservou muita coisa dos escritores primitivos. O imperador Constantino, em 331, pediu a Eusébio que preparasse cinqüenta cópias dos livros em grego aceitos nas igrejas cristãs (isto iria incluir, portanto, a Septuaginta).
Começando com a obra de Orígenes, Eusébio deu uma lista dos livros universalmente aceitos — 0mologoimena (omologoimena) quatro Evangelhos, Atos, catorze Epístolas de Paulo (incluindo Hebreus, embora ele tenha observado que a igreja ocidental não aceitasse a autoria paulina), I Pedro, I João e talvez o Apocalipse. Nos livros duvidosos, - antilegoimena (antilegoimena) -ele colocou Tiago, II Pedro, II e III João e Judas.
Estes livros eram duvidosos, mas foram aceitos pela maioria das igrejas. Nos livros espúrios, ele colocou Barnabé, o Didaquê, o Pastor de Hermas e, talvez, o Apocalipse. A ambigüidade sobre o Apocalipse surge no fato de que o próprio Eusébio teria rejeitado o livro, mas a tradição de aceitação era forte demais para ele negar sua validade. Ele tinha outra categoria que dava uma lista de livros que deveriam ser completamente rejeitados.
Em 367, Atanásio, Bispo de Alexandria de 328 a 373, publicou uma Carta de Páscoa às igrejas que estavam sob sua responsabilidade. Esta carta contém uma lista de vinte e sete livros, que haviam sido aprovados para instrução doutrinária. Esta lista coincide com os vinte e sete de nosso Novo Testamento.
Jamais se convocou um concilio geral das igrejas para definir o cânon do Novo Testamento. Contudo, os concílios subseqüentes, até Atanásio, confirmaram o que pareceu ter sido aceito. Deve-se reconhecer que Jerônimo começou sua tradução para o latim (O nome vem da expressão vulgata versio, isto é "versão de divulgação para o povo", e foi escrita em um latim cotidiano, usado na distinção consciente ao latim elegante de Cícero, o qual Jerônimo considerava seu mestre) em 383, e sua lista é idêntica à de Atanásio. Também o Concilio de Hipona (393), o Terceiro Concilio de Cartago (397) e Agostinho (que morreu em 430), todos, publicaram listas que coincidiam com os vinte e sete livros da Carta de Páscoa de Atanásio de 367.
É interessante observar, contudo, que nenhuma das igrejas sírias adotou o cânon de vinte e sete livros até o sexto século. Algumas destas igrejas aceitaram apenas vinte e dois livros.
PRINCÍPIOS PARA A SELEÇÃO
Talvez a primeira reação que se tem a essa revisão da história do cânon é que seu desenvolvimento e aceitação foram bem indefinidos. As condições sob as quais os livros circularam pela primeira vez nas igrejas, tão espalhadas e com meios de comunicação muito vagarosos, talvez possam explicar a incerteza durante os anos iniciais e para a posterior aceitação de alguns e rejeição de outros.
Ao ler-se os livros que foram rejeitados, pode-se ver por que os pais da igreja rejeitaram estes finalmente e receberam os presentes vinte e sete como autorizados. Contudo, o principal critério de canonicidade não pode ser separado da autenticidade. Apesar do fato óbvio de que as Escrituras foram escritas por homens, a autoridade encontra-se, em última análise, em Deus. Antes de os livros terem sido escritos, houve o testemunho apostólico, e antes do testemunho apostólico houve o próprio Jesus Cristo, que o Pai enviara ao mundo para trazer salvação. O próprio fato evidente de discussão da literatura durante o segundo século pressupõe o reconhecimento da autoridade. Na seleção dos vinte e sete livros, certos princípios foram seguidos. Eusébio apresenta estes em sua grande obra, História Eclesiástica.
1.     ORIGEM APOSTÓLICA
O primeiro princípio é o da origem apostólica. Jesus escolhera doze homens para estarem com ele e serem seus intérpretes após sua ascensão. Esses homens deveriam ser os responsáveis pela instrução de novos discípulos. Seu testemunho deveria ser aceito pela igreja como possuindo a autoridade do próprio Jesus. Conseqüentemente, seus escritos deveriam ter um lugar de honra dentro das igrejas.
Embora Paulo não fosse um dos doze, ele foi reconhecido como um homem singularmente inspirado pelo Espírito Santo para preencher a posição de um apóstolo. Até mesmo Pedro reconheceu a autoridade de Paulo (II Ped. 3:15 e ss.), e Clemente de Roma, em sua carta aos Coríntios, pôde escrever sobre a inspiração de Paulo, enquanto ele mesmo (Clemente) não pôde pretender nem distinção apostólica nem inspiração.
Algumas igrejas primitivas tinham outros livros aceitos, além dos nossos vinte e sete, mas estes foram finalmente rejeitados por causa de falta de prova quanto à sua autoria. Alguns destes livros tinham o nome de alguns dos homens mencionados nos outros escritos do Novo Testamento.
Por um certo tempo o Didaquê foi largamente aceito, e a razão para esta aceitação pode logo ser vista quando se conhece o título completo: "O Didaquê" (Ensino do Senhor Através dos Doze Apóstolos). Este livro foi rejeitado porque seus ensinos não eram condizentes com os dos livros mais aceitos. "O Pastor de Hermas" era uma obra bem conhecida da igreja primitiva, e foi de maneira geral aceita, porque se dizia que seu autor era o Hermas mencionado na Carta de Paulo aos Romanos (16:14). Isto, contudo, não foi suficiente para a igreja dar autoridade apostólica ao livro. Além disso, o espírito do livro foi reconhecido como sendo incompatível com os ensinos apostólicos.
A "Epístola de Clemente" desfrutou de alguma aceitação durante os primeiros anos, porque dava a entender que fora escrita pelo Clemente mencionado na Carta de Paulo aos Filipenses (4:3). Isto tornaria Clemente um apóstolo no sentido mais amplo, conforme usado no Novo Testamento, mas o eliminaria no sentido mais estrito da palavra. Como não se conhecia o bastante sobre ele, este livro foi finalmente posto de lado.
Contudo, existem livros, no Novo Testamento, que não têm um apóstolo como autor: Marcos, Lucas, Atos, Tiago, Judas, Hebreus e possivelmente Apocalipse. Como deve isto ser explicado? Devido à forte tradição da aceitação prematura de Marcos e Lucas, alguma teoria teve que ser imaginada para justificar sua aceitação. Para isso os pais primitivos indicaram que Marcos escreveu sob a direção de Pedro e Lucas sob a de Paulo.
Eusébio cita Papias: "Marcos foi o intérprete de Pedro." Tiago e Judas eram considerados como sendo irmãos de Jesus na carne (Mar. 6:3), e seu testemunho remontaria ao próprio Jesus. Também Tiago fora o mui influente pastor da igreja em Jerusalém após a morte de Tiago, o filho de Zebedeu. Hebreus circulou, a princípio, como uma carta de Paulo. Quando surgiram problemas textuais acerca de sua autoria, foi sugerido que Barnabé, companheiro de Paulo, tenha sido o autor. Contudo, a tradição da autoria paulina era grande demais para ser negada, e, assim, a carta foi aceita na lista recebida.
Os parágrafos acima indicam a autoria que a igreja primitiva colocou no testemunho dos doze e de Paulo. Também mostram que a igreja tornou-se mais cônscia da necessidade de o testemunho apostólico ser a base para a doutrina cristã. Isto revela a força da influência que a APOSTOLICIDADE tinha sobre a igreja. A obra doutrinária teve que ter suas origens nos apóstolos.
2.     ACEITAÇÃO
A segunda consideração foi concernente à aceitação desses livros pelas igrejas às quais eles foram escritos, e seu reconhecimento por um período de tempo longo e contínuo, e seu uso pelas gerações posteriores. Nas cartas de Paulo, os leitores são admoestados a certificarem-se de que seus escritos eram aceitos como genuínos (II Tess. 2:2; 3:17). A igreja receptora deve ser capaz de responsabilizar-se por qualquer obra, fazer cópias e distribuí-las a outras igrejas. Embora outros livros fossem lidos às vezes nas igrejas, foi o uso continuado e a certeza da autoria que levaram à seleção dos vinte e sete livros aceitos como inspirados.
3.     CONSISTÊNCIA DOUTRINÁRIA
A consistência doutrinária foi o terceiro elemento na determinação do cânon final. Com o padrão do Velho Testamento e o ensino dos apóstolos, esta foi uma útil consideração. Ela possibilitou a igreja a expor e repudiar as grandes heresias dos primeiros séculos e a preservar o evangelho em sua pureza. Livros com erros óbvios, bem como não tão óbvios, foram, desta forma, eliminados do cânon.
Pelo final do quarto século, o cânon foi fixado. Vinte e sete livros foram reconhecidos como possuidores de autoridade de Escritos Sagrados. Alguns outros (o Pastor de Hermas, a Epístola de Barnabé e a Epístola de Clemente) foram permitidos serem lidos em devoção privada para edificação; mas, uma grande distinção foi feita entre estes e as "ESCRITURAS". Os escolhidos para estarem no cânon foram aqueles que haviam sido lidos por um período de vários séculos e provados serem de valor espiritual especial para as igrejas. O testemunho dos séculos desde então até os dias presentes levou os fiéis a professarem a operação do Espírito Santo na escrita, seleção e preservação destes vinte e sete do Novo Testamento.
O TEXTO DO NOVO TESTAMENTO -  CRÍTICA TEXTUAL
         Tendo-se um Novo Testamento de vinte e sete livros reconhecidos como o testemunho autorizado dos apóstolos e da igreja primitiva,  surge outro problema. É o problema com o texto dos próprios livros. Nenhum dos manuscritos originais (autógrafos) sobreviveram, e os manuscritos existentes têm muitas diferenças textuais. Foi afirmado que das 4.800 cópias em grego de várias partes do Novo Testamento não existem duas exatamente iguais.
O mais antigo manuscrito é uma porção do Evangelho de João (capítulo 18:31-33; 37-38) que foi escrito durante o primeiro quartel do segundo século (Rylands Papyrus 457). Os manuscritos mais confiáveis datam do terceiro e quarto séculos. Foi afirmado acima que em 331 o imperador romano Constantino comissionou Eusébio para fazer cinqüenta cópias das Escrituras gregas. Alguns estudiosos modernos acham que talvez duas destas cinqüenta poderiam possivelmente ser os grandes manuscritos conhecidos hoje como Vaticanus e Sinaiticus. Mas deve ser lembrado que estes são do quarto século.
O estudante sério do Novo Testamento quererá ter a garantia de que está estudando o melhor texto disponível. Não é apenas uma simples questão de traduzir-se do grego para outra língua. Simplesmente há demasiadas interpretações variantes para isso. Deve ser feita uma tentativa de restaurar-se o texto original. Isto desenvolveu-se em uma ciência definida denominada crítica textual. Ê tarefa do crítico textual restaurar tão próximo quanto possível o texto original e explicar como esse texto foi conseguido. Para fazer isso, ele deve explicar a maneira de transmissão que permitiria as variantes aparecerem nas cópias que temos.
MATERIAIS
         Deve ser lembrado que a produção de cartas, livros e qualquer outra forma de material escrito foi difícil até a invenção da imprensa. Após o autógrafo original, qualquer cópia ou cópias tinham que ser feitas a mão. E tudo isso com material que, no máximo, não era muito durável. Ê, portanto, surpreendente que quaisquer documentos copiados datando do segundo, terceiro e quarto séculos tenham sobrevivido até o tempo presente.
Os autógrafos originais foram escritos sobre papiro, um junco que crescia ao longo das margens do rio Nilo, no Egito. O uso de papiro pelos egípcios remonta ao terceiro milênio antes de Cristo até a metade do quarto século depois de Cristo, e era o material mais barato (e o mais disponível) a ser usado. Era o papel de escrita para o mundo de fala grega.
O "papel" era preparado removendo-se a cortiça externa da planta e cortando-se a medula em tiras. Estas, então, eram colocadas em posição vertical, uma ao lado da outra. Depois, postas sob pressão, para serem alisadas, elas eram tratadas com cola. Outras tiras eram, em seguida, colocadas horizontalmente sobre (perpendicular a) estas folhas, e outra vez tudo era colocado sob pressão e depois secado ao sol. A folha era então polida com pedra-pome, que lhe dava uma superfície lisa.
O lado do "papel" barato era alisado. A escrita era feita sobre o lado liso, que era o das tiras horizontais. Este lado era chamado recto. Se o outro lado (verso) era também tratado, este seria usado se necessário (às vezes ele era usado mesmo quando não estava alisado). A folha acabada tinha cerca do tamanho de nosso papel normal para datilografia. Essas folhas eram colocadas juntas, lado a lado, para formarem um rolo de qualquer comprimento.
Tanto quanto necessário, poderia ser usado, e o resto cortado fora. Por exemplo, foi estimado que II Tessalonicenses requereria um rolo de apenas 38 centímetros, enquanto o Evangelho de Lucas teria sido de 10 metros, todos os 27 livros fazendo um rolo de mais de 65 metros. A tinta primitiva era feita de fuligem e cola. Esta combinação tinha a tendência de desbotar rapidamente.
Anteriormente, o material de escrita fora couro ou barro. No Egito há referências a documentos escritos em peles no quarto milênio antes de Cristo. Ê afirmado, no Talmude, que todas as cópias da lei deviam ser escritas em peles e na forma de rolo. Este processo de usar-se peles era refinado, até que o velino fosse o resultado. O velino (ou pergaminho) é um material preparado a partir das peles de gado, carneiro, veado e ocasionalmente antílope. Foi aceito que este processo de refinamento do couro foi inventado por Eumenes de Pérgamo, na Ásia Menor. Surgiu da necessidade.
Ptolomeu Filadelfo, do Egito (285-247 a.C.), havia declarado um embargo sobre a exportação de papiro (ele tinha ciúmes de um colecionador de livros rival). Por esta razão, o velino é também conhecido como pergaminho (do adjetivo grego para Pérgamo). O uso do velino não substituiu o papiro até o quarto século depois de Cristo. É muito mais durável que o papiro. Quando Constantino ordenou a Eusébio para fazer cinqüenta cópias dos escritos sagrados dos cristãos, foi exigido que elas fossem feitas em velino. A tinta era uma combinação de bexiga de fel, visto que a tinta de fuligem não se adequava ao pergaminho.
Conforme foi indicado acima, os primeiros escritos foram feitos em rolos. Esta era a maneira do uso do papiro, bem como das peles. Foi usado até cerca do final do período apostólico. O uso do rolo não facilitava achar-se as passagens. Era incômodo desenrolar e enrolar todo o manuscrito, a fim de encontrar-se uma dada porção da Palavra de Deus. Contudo, as referências a biblíon e bíblia no Novo Testamento são ao rolo (Mat. 1:1; Mar. 12:26; Luc. 3:4; 20:42; João 20:30; 21:25; At. 1:20; 7:42; 19:19; Apoc. 5:1,2; 10:2).
Durante o primeiro século antes de Cristo, a prática de "encadernação" de folhas de papiro e peles iniciou-se. Tornou-se comum dobrar-se uma única folha para uma carta. Com o papiro, ambos os lados poderiam ser usados. Com velino, numa coleção de folhas dobradas, o lado liso dava frente para o lado liso e o lado áspero para o lado áspero. Um número de folhas dobradas juntas formaria um caderno (da prática de usar-se oito folhas ou dezesseis páginas e usando-se a palavra latina quaterino para isto). A coleção inteira era chamada codex (livro de folha).
Foi sugerido por alguns estudiosos que o uso do codex tornou-se lugar comum, porque os cristãos queriam um modo mais rápido de encontrar uma dada passagem. Então também uma maior quantidade de escrita poderia ser colocada num espaço menor. Os códices de papiro são raros, mas existem, provando o uso desta forma de coleção antes de perder para o velino. Pelo quarto século, o velino havia substituído o papiro como o material e o codex substituiu o rolo como a forma.
ESTILO DE ESCRITA
         O estilo de escrita dependia do escritor. Contudo, nos primeiros anos havia geralmente dois estilos: uncial (letras maiúsculas grandes; também chamado o estilo literário), e cursivo (letras maiúsculas menores escritas em mão fluente; também chamado o estilo não-literário). Com o rolo, o uncial era a maneira preferida. Com letras maiúsculas grandes e quadradas, separadas umas das outras, freqüentemente com curvas delicadas, o manuscrito uncial formava uma bela página. A maior parte dos manuscritos de papiro tem letras unciais. Os grandes manuscritos do quarto século são códices com letras unciais.
Mas a cópia dos manuscritos unciais era uma tarefa muito morosa e tediosa. Como resultado, foram introduzidas letras maiúsculas menores, e, para facilitar a escrita e conservar o espaço, as letras começaram a ser escritas com mão solta, cada letra estando ligada à sua letra vizinha. O desaparecimento dos unciais menores e o aparecimento de letra de caixa mais baixa é pela primeira vez observado nos manuscritos do século sete. Estas letras de caixa baixa "soltas" juntas são chamadas "cursivas" ou minúsculas. Pelo nono século, a escrita cursiva havia substituído completamente o manuscrito uncial.
As pessoas que faziam a cópia propriamente dita eram chamadas escribas. Havia uma classe profissional de homens que se davam a esse tipo de trabalho. Em algumas das cidades maiores, havia scriptoriums, muito parecidos com os escritórios de hoje. Mas deve ser lembrado que a imprensa não foi inventada até cerca de 1450, e todos os livros tinham que ser escritos a mão (daí a palavra "manuscrito", do latim manuscriptum: escrito a mão) e todas as cópias eram feitas do mesmo modo. Por estas razões, muitos erros de transcrição poderiam entrar na última cópia de um livro.
Nos scriptoriums um leitor vagarosamente ditaria o material a ser copiado, e os escribas escreveriam o que ouviam. Por esta razão, muitos erros de soletragem apareciam no texto. As vezes o leitor pronunciava erroneamente uma palavra, ou a luz estaria fraca e o texto difícil de se ver, ou o copista ou escriba não daria sua total atenção ao seu trabalho. Era um trabalho tedioso. Geralmente nos lugares de cópia profissional haveria uma pessoa que leria e corrigiria a cópia acabada. Estas correções podem ser encontradas em muitos dos manuscritos unciais do quarto e quinto séculos.
Contudo, no caso de uma igreja pobre, as cópias eram feitas apressadamente e sem o benefício de uma revisão por miúdo. Certamente entravam erros, e mais enganos podiam ser acrescentados, à medida que as cópias das cópias eram feitas. Há dois tipos distintos de erros que poderiam ser feitos.
O primeiro é o da mão, olho e ouvido, a simples mecânica da transcrição. Seria fácil o copista errar ao formar uma letra, especialmente quando as orações e palavras eram escritas juntas, sem uma pausa ou espaço entre elas. Freqüentemente, algumas letras eram deixadas fora desintencionadamente. Eram usadas abreviações regularmente também. O leitor bem podia saltar uma palavra, ou letra, e ler erroneamente as abreviações. O ouvido poderia ouvir o som de uma palavra e o copista depois escrever uma palavra diferente que tinha o mesmo som. Ás vezes o texto que estava sendo copiado tinha palavras ou orações explicativas nas margens ou entre as linhas, e o leitor incorporaria estas ao ler o texto para o escriba.
O segundo tipo de erro é a mudança intencional. Deve ser lembrado que na própria igreja primitiva os vinte e sete livros não eram tratados como escritos sagrados. Ã medida que o conceito da autoridade apostólica aumentava, a veneração desses manuscritos geralmente os protegia de maiores erros. Mas, nos anos iniciais, um escriba, ou leitor, intencionalmente alteraria um texto, por várias razões. Poderia ser para mudanças lingüísticas ou retóricas; para "refinar" o texto gramaticalmente. Certas vezes um escriba iria desejar esclarecer alguma dificuldade histórica ou fazer um texto harmonizar-se com outro. Naturalmente, poderia haver alterações doutrinárias (conforme evidenciado pelas mutações no cânon de Marcião).

Foi estimado que no Novo Testamento uma entre cada oito palavras estava sujeita a algum erro. Isto significa que sete oitavos são relativamente as palavras exatas do autor. Das que perfaziam um oitavo, a vasta maioria de erros está na primeira categoria de erros de transcrição. Ou seja, esses erros são realmente questões triviais de ortodoxia. Dos erros realmente sérios, somente cerca de um sessenta avos de todo o Novo Testamento está ainda em alguma dúvida, e somente cerca de uma milésima parte pode ser chamada de uma variação substancial. Ê com esta milésima parte que se constitui o conflito real na crítica textual. Passagens tais como Marcos 16:9-20; João 7:53-8:11; I João 5:7,8 são desta natureza.
FONTES PARA A CRITICA TEXTUAL
Manuscritos Gregos — A fonte principal para a obra da crítica textual são os manuscritos gregos que sobreviveram. Quando se considera que existem quase 5.000 porções em grego da Escritura, é difícil imaginar-se que alguma tenha qualquer possibilidade de ser remanescente dos anos iniciais. Isto foi explicado acima. Contudo, algumas foram preservadas, e é com estas que nós trabalhamos. Estas que chegaram a nós foram categorizadas como segue: papiros, unciais e minúsculas. A grande maioria destas constitui o último grupo e data do nono século até a invenção da imprensa. Aqui será dada atenção às mais importantes da primeira e segunda categorias.
Fragmentos de Papiro — Ao se denotar manuscritos e fragmentos de papiro, um P maiúsculo é usado, seguido de um número arábico. Um dos mais importantes "achados" foi o do Sr. Chester Beatty, que comprou um grupo de folhas de papiro de um negociante egípcio, por volta de 1931. Estas folhas formam porções de cinco manuscritos do Velho Testamento, três do Novo Testamento, e dois manuscritos de outros escritos. Estes manuscritos contribuíram para a maior parte de nosso conhecimento, tanto para a produção do livro como para a história da Bíblia grega, antes dos grandes manuscritos de velino do quarto século. Os manuscritos estão atualmente no Museu Chester Beatty, um pouco fora da cidade de Dublim, Irlanda. Esses fragmentos, de interesse para o estudo do Novo Testamento, são codificados: P45. P46 P47.
O papiro P45 (Papiro Chester Beatty I) consiste de trinta folhas de um códice que continha um total estimado de cerca de 220. Estas foram escritas pelo final do segundo século ou início do terceiro. Os cadernos são formados de apenas duas folhas cada, sugerindo uma data muito anterior à daqueles com cadernos de até doze folhas. A escrita é pequena e numa única coluna. Estas folhas consistem de duas de Mateus, seis de Marcos, sete de Lucas, duas de João e treze de Atos.
O papiro P46 (Papiro Chester Beatty II) contém oitenta e seis folhas, quase perfeitas, de um códice das cartas de Paulo, que originalmente tinha cerca de 104 folhas. A ordem das Epístolas é: Romanos, Hebreus, I e II Coríntios, Efésios, Gálatas, Filipenses, Colossenses e I e II Tessalonicenses. Faltando estão as pastorais, que podem ter sido um caderno completo, separado. A importância deste manuscrito é seu testemunho acerca das cartas paulinas e de Hebreus pelo menos um século antes dos grandes unciais do quarto século.
O papiro P47 (Papiro Chester Beatty III) é um manuscrito, em forma de códice, de trinta e duas folhas, com dez folhas a partir da seção do meio de Apocalipse (10:10-17:2).  Foi escrito grosseiramente no início do terceiro século. Este é o mais antigo manuscrito do livro de Apocalipse.
O papiro P52 (Papiro Rylands 457) é um pedaço de um papiro encontrado para a Biblioteca John Rylands em Manchester, Inglaterra, em 1920. Com Cerca de 6,5 x 8,5 cm de tamanho, foi identificado como a mais antiga porção existente do Novo Testamento. Contém João 17:31-33,37,38 numa forma escrita que pode ser atribuída ao primeiro quartel do segundo século. Tendo sido achado no Egito, este fragmento é forte evidência, usada para refutar a idéia do século dezenove de que João foi escrito bem no segundo século.
O P66 (Papiro Bodmer II), que contém João 1-21, foi comprado juntamente com uma grande coleção de fragmentos de manuscritos de papiro para a Biblioteca Bodmer, em Genebra. A data da escrita é em torno de 200 d.C. Sua importância está em sua forma bem completa, conforme comparada com o outro manuscrito do mesmo período, o P45.
O P72 (Papiro Bodmer VII, VIII) cerca da mesma época do P 66, contém I e II Pedro e Judas e é o mais antigo texto preservado destes três livros. Aparentemente escrito por um nativo de fala cóptica. Há outros documentos neste manuscrito que não têm nenhuma relação com nosso Novo Testamento.
O P75 (Papiro Bodmer XIV, XV) é provavelmente o mais importante dos três manuscritos. Consistindo de 102 folhas, de umas 144 estimadas, este manuscrito contém a maior parte de Lucas (4-18, 22-24) e uma grande parte de João (1-15). Deve ser bem observado que João se liga com Lucas e pressupõe um evangelho quádruplo. Este manuscrito data do final do segundo século.
Unciais de Velino — Mui poucos fragmentos de pergaminho do terceiro século subsistiram. Esses permanecem sendo testemunhas principalmente do Diatessáron de Tatiano. Começando com o quarto século, todavia, temos muitos fragmentos e vários manuscritos unciais, quase completos, escritos em velino. A seqüência dos livros do Novo Testamento geralmente é a seguinte: Evangelhos, Atos, Epístolas Gerais, Apocalipse. Ás vezes há uma variação de ordem quanto às epístolas paulinas (depois ou antes de Atos). Os seguintes representam apenas os mais importantes dos manuscritos de pergaminho unciais.
Codex Vaticanus (B) — Está na Biblioteca do Vaticano. Este manuscrito contém a maior parte do Velho Testamento e todos os livros do Novo Testamento (exceto Hebreus 9:15-13:25; I e II Timóteo, Tito, Filemom e Apocalipse). Estes livros e porção de Hebreus teriam formado cadernos adicionais, que se perderam. Foi escrito na parte inicial do quarto século, na época ou antes das cinqüenta cópias feitas por Eusébio, por ordem de Constantino. A tinta havia desbotado, e um escriba do século dez traçou o texto com tinta fresca. Ele deixou fora palavras e letras que lhe pareceram estar incorretas. Parece também que dois outros escribas tentaram uma correção do texto original. Este manuscrito é reconhecido como o mais importante de todos os manuscritos depois que a mudança para o velino foi feita.
Provavelmente escrito no Egito (ou Cesaréia), este manuscrito reflete a influência de Atanásio na ordem e seleção dos livros no Velho Testamento, e no Novo Testamento, em sua ordem. Entrou na Biblioteca do Vaticano em alguma época antes de 1481. Naquele ano ele apareceu na relação de livros da biblioteca. Contudo, as autoridades hesitaram em permitir seu uso, e assim permaneceu indisponível até 1889. Continha cerca de 820 folhas, das quais restam 759. Por esta razão, os antigos textos e traduções gregos impressos antes de 1890 não puderam fazer uso deste grande e importante manuscrito.
Codex Sinaiticus (X) — Está no Museu Britânico, em Londres. Em 1844, o Conde Constantino Tischendorf, um dos grandes homens na história da crítica textual, esteve viajando no Oriente, à procura de manuscritos, e aconteceu visitar o Monastério Ortodoxo de Santa Catarina do Monte Sinai. Lá ele encontrou, numa cesta de lixo, alguns pergaminhos antigos, que estavam para ser queimados. Reconhecendo a importância dessas folhas, ele pôde guardar quarenta e três que encontrou. Retornando ao Monte Sinai em 1853, ele descobriu outras folhas do mesmo manuscrito, mas os monges se recusaram a lhas dar. Voltando outra vez em 1859, sob a proteção do Czar Alexandre II, o patrono da Igreja Ortodoxa Grega, a Tischendorf foi permitido levar o manuscrito para o Cairo e copiá-lo. Ele também persuadiu os monges a presenteá-lo como doação ao Czar. Em 1933, ele foi comprado pelo Museu Britânico, por cerca de 500.000 dólares, do governo comunista russo.
Contendo umas 245 folhas de quase todo o Velho Testamento, o Novo Testamento inteiro e dois livros cristãos adicionais (Epístola de Barnabé, grande parte de O Pastor de Hermas), foi escrito no início do quarto século, um pouco depois do manuscrito Vaticanus. É possível que os dois tenham vindo do mesmo scriptorium. Contudo, ele contém o chamado Cânon de Eusébio, que o Vaticanus não tem. Este cânon é compreendido de quadros projetados por Eusébio, para ajudar o leitor a encontrar passagens paralelas nos Evangelhos. Este é o mais antigo manuscrito completo existente. A ordem dos livros é: os Evangelhos, Epístolas Paulinas, Atos, Epístolas Gerais e Apocalipse. Pelo fato de conter o Cânon de Eusébio, muitos estudiosos acham que talvez este manuscrito foi um dos cinqüenta encomendados por Constantino.
Codex Alexandrinus (A) — Este uma vez foi uma Bíblia completa. Tem sido usado por estudiosos desde 1550. Foi presenteado a Carlos I, da Inglaterra, em 1627, e desde 1751 tem estado no Museu Britânico. Escrito em velino muito fino, está gasto em alguns lugares. Segue a ordem do Vaticanus. O texto é inferior, em sua maior parte, mas é o melhor manuscrito quanto ao Apocalipse. Uma nota em árabe, no início, diz que foi escrito por uma mulher de nome Teda, a Mártir. Os estudiosos colocam a data da escrita no quinto século.
Codex Ephraemi Rescriptus (C) — É um palimpsesto, tendo sido o texto original rasgado, para prover material para os sermões de Efreão da Síria, do século doze. Continha todo o Velho Testamento (somente restam sessenta e quatro folhas), bem como o Novo Testamento (145 de umas possíveis 238). Os estudiosos datam a escrita como sendo do quinto século, talvez tendo sido feita pouco depois do Codex Alexandrinus. Contém todo o Novo Testamento (pelo menos porções dos livros), exceto II Tessalonicenses e II João. Encontra-se na Biblioteca Nacional, em Paris. Seu texto não é tão digno de confiança quanto o dos três manuscritos anteriores. Aparentemente, também provém de um scriptorium egípcio.
Codex Bezae Cantabrigiensis (D) — É um códice do final do quinto ou início do sexto século. Contém colunas paralelas de textos, tanto gregos como latinos. Este manuscrito contém os Evangelhos (na ordem ocidental: Mateus, João, Lucas, Marcos) e Atos. Recebeu o nome do pupilo e amigo de João Calvino, em Genebra, Theodore Bezae, e da biblioteca onde está agora localizado, em Cambridge, Inglaterra. Sua importância está em suas muitas variações dos quatro manuscritos anteriores.
Codex Bezae Cleromontanus (D) — Também tem o nome de Theodore Bezae e da biblioteca onde esteve por tantos anos (o Monastério de Clermont, em Beauvais, França), antes de encontrar seu local permanente na Biblioteca Nacional, em Paris. Contém as cartas paulinas, em colunas paralelas de grego e latim. O grego é superior e o latim inferior ao da Cantabrigiensis, nos Evangelhos e em Atos, contudo, o manuscrito é num velino muito fino e escrito com uma bela letra. Este foi, provavelmente, produzido em Sardínia, no sexto século, e o da Cantabrigiensis no Egito. É, portanto, necessário o estudante saber que o símbolo D ou o nome Codex Bezae poderiam significar qualquer um dos dois manuscritos distintos.
Codex Laudianus (E) — É um manuscrito de Atos do sétimo século. É também escrito em colunas paralelas de latim e grego. Está na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, tendo sido levado para a Inglaterra no final do sétimo ou início do oitavo século. O Arcebispo Laud presenteou-o a Oxford em 1636. É o mais antigo manuscrito que contém Atos 8:37, a confissão de fé do etíope. Este manuscrito deve ser distinguido de outro com o símbolo E que tem o nome Basiliensis e é uma cópia do século oitavo do Bezae Cantabrigiensis e, daí, sendo de pouco valor.
Codex Washingtonianus (W) — Está na Coleção Freer, em Washington. Ê do final do quarto ou início do quinto século. Os Evangelhos estão na ordem ocidental (Mateus, João, Lucas, Marcos). Foram preservadas 187 folhas, em vinte e seis cadernos, de oito folhas cada um. Este é o único manuscrito existente que tem um acréscimo apocalíptico após Marcos 16:14, ao qual Jerônimo faz referência.
Codex Koridethi (O) — Ê um manuscrito muito recente (nono século), escrito no Monte Sinai, mas encontrado num monastério em Tiflis, em 1913. Foi produzido quando a maioria dos escritos estava se voltando para as minúsculas. Ele inicia um número muito grande de manuscritos mais recentes que dão testemunho do chamado texto de Cesaréia. Ê escrito com unciais grosseiras, por um escriba que conhecia muito pouco grego.
Minúsculas de Velino — Conforme já foi observado acima, o manuscrito uncial foi gradualmente sendo substituído pela forma de escrita minúscula, que economizava tempo e era mais rápida, denominada cursiva. A mudança gradual iniciou-se no sétimo século, e, por volta do final do nono e décimo séculos, estava quase completa. A maioria dos manuscritos gregos do Novo Testamento é deste período posterior. Estes manuscritos e fragmentos estão se aproximando de 2.600 em número, à medida que mais estão sendo descobertos. A maior parte destes tem significado somente como testemunha da história do texto desde o período das unciais até o do primeiro texto impresso no século dezesseis. Famílias textuais claramente definíveis podem ser determinadas em muitos deste grande número. Números arábicos pequenos são usados para identificar estes manuscritos.
Os mais importantes destes manuscritos formam duas famílias. Família 1, encabeçada pelos manuscritos 1, 118, 131, 209. Esta é também chamada a Família Lake, que obteve o nome do homem que identificou estes como atestando uma tradição (Kirsopp Lake). A Família 13 é encabeçada por 13, 69, 124, 346 e vários outros, mostrando mais ou menos afinidade com estes. É também chamada a Família Ferrar, segundo o nome W.H. Ferrar, que identificou este grupo.
A Minúscula 1 é de importância, porque Erasmo usou esta na primeira edição impressa do Novo Testamento grego. Contudo, a Minúscula 2 foi seguida, em sua maior parte, nos Evangelhos. Este é um documento muito pobre, do século quinze.
A Minúscula 33 é de importância e foi denominada "a rainha das minúsculas". Data do século nono e aproxima-se do texto Vaticanus. Consiste dos Evangelhos, Atos e epístolas paulinas. Westcott e Hort consideram-na a melhor das cursivas.
Versões
Com quase 5.000 manuscritos e fragmentos gregos, fica-se curioso por que manuscritos de outras línguas seriam de importância no estudo do texto grego. O grego havia penetrado em todas as nações do mundo civilizado conhecido e se tornou a língua do comércio, governo, comunicação e religião. Mas, em algumas das comunidades que estavam "fora do caminho", os nativos ainda se prendiam a seus dialetos. O grego era a língua principal, e muitas pessoas não o entendiam prontamente. Por esta razão, quando o cristianismo penetrou naquelas áreas que não usavam o grego como a língua principal, os Evangelhos e os primeiros escritos cristãos foram traduzidos para a língua nativa. As mais importantes destas são o siríaco, o cóptico e o latim antigo.
Siríaco
Esta era a língua da Mesopotâmia e Síria e também a língua corriqueira (com algumas diferenças dialéticas) na Palestina. A igreja primitiva partiu para a Samária, e depois, para a Síria. Antioquia da Síria logo se tornou um centro do cristianismo. Foi, provavelmente, para o siríaco antigo que as primeiras traduções foram feitas. Pelo menos, pelo meado do segundo século, as pessoas de fala siríaca tinham escrituras em seu próprio idioma. Tatiano produziu seu Diatessáron antes de ter deixado Roma, para voltar ao seu lar nativo, em Edessa da Síria. Esta obra foi traduzida para o siríaco logo após sua chegada à Síria. Existem outras versões antigas do Novo Testamento, e estas são chamadas Siríaca Antiga (alguns manuscritos do quarto e quinto séculos que atentam para um texto anterior, que é semelhante ao do Vaticanus e do Sinaiticus), Siríaca Peshitta (também do quinto século, mas dependente da Siríaca Antiga), Siríaca Filoxeniana ou Siríaca Harkleiana (uma tradução feita por Filoxeno de Hierápolis, em 508, e revisada por Tomé de Harkel, do Egito, em 616), e a Siríaca da Palestina (conhecida somente em fragmentos do sexto século).
Cóptico
Os vários dialetos do vernáculo egípcio são agrupados juntos no que é chamado cóptico. Devido às grandes colônias dos judeus no Egito, e particularmente em Alexandria, o cristianismo entrou cedo nesta região. Duas versões são reconhecidas como sendo do Egito: a Saídica (Alto Egito, ou Sul do Egito), que parece ser um pouco anterior, por causa da necessidade de uma tradução para o vernáculo, visto que o grego não era largamente usado ali, conforme o era ao redor da grande cidade de Alexandria. O manuscrito mais antigo vem do quarto século, mas atesta um texto muito anterior. A Boaírica, que surgiu mais tarde, no Baixo Egito, ou Norte do Egito. Sendo essa região o centro, política e comercialmente, do Egito, o grego era largamente usado e não havia necessidade imediata para tradução para o vernáculo cóptico. Os manuscritos, existentes são do quarto ou quinto século e se aproximam dos textos Vaticanus e Sinaiticus.
Latina Antiga
Estas são as traduções latinas efetuadas antes de Jerônimo fazer a sua chamada Vulgata, na última parte do quarto século. O Velho Testamento da Vulgata foi traduzido do texto hebraico, enquanto o Velho Testamento na Latina Antiga, do da Septuaginta. No Novo Testamento, a Latina Antiga é uma tradução do grego, e a Vulgata é apenas uma revisão da Latina Antiga. Daí, a importância da Latina Antiga como testemunha do texto do Novo Testamento. Muitos manuscritos ainda existem. A tradução provavelmente foi feita pela primeira vez na África. Outra tradução, independente da feita na África, foi efetuada um pouco mais tarde, na Europa. Para amenizar as diferenças entre estas duas traduções rivais, uma terceira foi feita na Itália. Agostinho disse que esta foi a melhor das três. Cipriano (que faleceu por volta de 258) usou o texto africano. Irineu usou o texto europeu, em suas obras em latim. Agostinho (354-430) usou a italiana.
Outras versões, de menor importância, são a armênia, a geórgica, a etiópica, a gótica e a árabe. Estas são, primariamente, traduções de versões, e não do grego. Não atestam diretamente o texto grego. Constituem, em sua maior parte, manuscritos recentes.

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