segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

UM ESTUDO BOM DE PEGAR A BÍLBIA E ESTUDAR.AMÉM

EDIÇÃO Nº 03 DEZEMBRO DE 2012
ARTIGO RECEBIDO ATÉ 05/11/2012
ARTIGO APROVADO ATÉ 30/11/2012
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ASSOMBRADOS PELO HOLOCAUSTO: ULTRAPASSANDO AS CERCAS DE ARAME FARPADO EM O PROFETA, DE SAMUEL RAWET
Larissa Silva Nascimento
(Professora do Departamento de Letras da UEG)
Michelle dos Santos
(Professora do Departamento de História da UEG)
RESUMO: Este artigo investiga o estado de assombramento pelo Holocausto existente na sociedade contemporânea, como é visto no personagem O Profeta (1972), de Samuel Rawet. Apesar de ser um imigrante judeu que veio para Brasil buscar conforto no seio familiar, este protagonista traz consigo os traumas e os horrores vividos naquele aterrorizante período da história mundial, a sombra do Holocausto o persegue. Sendo assim, essa representação de Rawet ultrapassa as cercas de arame farpado dos campos de concentração. A “narrativa do Lager”, ou seja, dos campos de concentração, é encontrada na tradicional autobiografia É isto um homem? (1988), escrita por Primo Levi, sobrevivente do Holocausto, enquanto em O Profeta, conto ficcional, o Holocausto é construído a partir de trágicas recordações desse evento histórico. O Profeta está, provavelmente, no Brasil dos anos 50, ultrapassando, assim, o tempo (1939-1945) e o espaço (Alemanha e Polônia) convencionalmente destinados ao Holocausto. Os traumas estabelecidos pela opressão nazista ao personagem O Profeta adquirem nova roupagem.
PALAVRAS-CHAVE: Holocausto. Representação. Assombrados. Memória.
ABSTRACT: This article investigates the Holocaust’s haunting state present in the contemporary society, as seen in the character on The Prophet (1972) by Samuel Rawet. Despite of him being a Jewish immigrant who came to Brazil seeking comfort in the family, this protagonist carries the traumas and the horrors of that terrifying period of world’s history, the Holocaust’s shadow chases him. Therefore, this Rawet’s representation goes beyond the concentration camps’ barbed wire. The “Lager narrative”, or in other words, the concentration camps one, is found in traditional autobiography Is this a man? (1988), written by Primo Levi, a Holocaust survivor, while in The Prophet, a fictional tale, the Holocaust is constructed from these historic event’s tragic memories. The Prophet is probably in the 50’s in Brazil, exceeding then the time (1939-1945) and space (Germany and Poland) conventionally designed to the Holocaust. The traumas established by the Nazi oppression experienced by the character on The Prophet acquire them a new guise.
KEYWORDS: Holocaust. Representation. Haunted. Memory.
O Holocausto é, atualmente, um objeto da cultura de massa. Os Holocaust-Studies cada vez mais ganham espaço no meio intelectual. Livros e filmes sobre o Holocausto são prestigiados com os mais variados prêmios. Há uma incessante quantidade de publicações e produções sobre esse acontecimento, tal como os romances É isto um homem? (1988) escrito pelo italiano Primo Levi, Sem Destino (2003) escrito pelo húngaro Imre Kertész e Os
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emigrantes: quatro narrativas longas (2009) escrito pelo alemão W. G. Sebald. A abundância de museus sobre o Holocausto também demonstra a imensa notoriedade que o tema possui na sociedade contemporânea, bons exemplos são o United States of Holocaust Memorial Museum (Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos) fundado em 1993 pelo presidente em exercício na ocasião, Bill Clinton, e o monumento Yad Vashem fundado em 1953 na cidade de Jerusalém, em Israel.
Segundo a afirmação de Vilém Flusser, “um dos efeitos do nazismo que mais se prolongou no tempo foi a kitschização da suástica” (FLUSSER, 2007, p. 67). O kitsch é um termo alemão utilizado para caracterizar produtos, principalmente da indústria cultural, que possuem valores estéticos exagerados e/ou distorcidos, sendo considerados inferiores à sua inspiração de origem. São objetos que pretendem atingir a estima e a importância artística das suas matrizes, porém de forma popular e industrial. A Segunda Guerra Mundial, especialmente a parte referente ao Holocausto, é um dos assuntos mais recorrentes na cultura atual. Assim, nota-se a existência de um “Holocausto interativo e a domicílio” (HARTOG, 2001, p. 16). Tal evento, indubitavelmente, se tornou um dos espetáculos (trágicos) da sociedade contemporânea.
Entretanto, em 1956, ano original de publicação do livro Contos do Imigrante escrito por Samuel Rawet, no qual se encontra o conto O Profeta que será analisado aqui, ainda havia resquícios da “memória envergonhada” (POLLACK, 1989, p. 6). Os países europeus mais afetados pela Segunda Guerra Mundial viviam um momento de silenciamento devido ao acanhamento que o horror provocou nas vítimas, elas precisavam ser inseridas na sociedade novamente e, não se pode esquecer, que alguns soldados alemães também faziam parte da reconstrução do país. No imediato pós-guerra, as vítimas do Holocausto se constrangiam pelo passado de perseguição e os alemães por terem sido a população que forjou tal tragédia. Desse modo, “Contos do Imigrante é visto como ‘uma das primeiras, se não a primeira, obra da literatura judaica no Brasil”, bem como Rawet é um dos pioneiros a utilizar o tema Holocausto na literatura brasileira. Rawet rompe o silêncio, apesar de o profeta ser um protagonista essencialmente emudecido pela incompreensão. Esse conto é construído “entre o que conta e o que cala, entre o que domina e o que se submete” (WALDMAN, 2003, p. 72).
Algumas obras e produções acerca do Holocausto são justificadas pela necessidade de relembrar o horror passado para evitar uma catástrofe semelhante. De acordo
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com o alarmante e destacado sociólogo Zygmunt Bauman, “podemos suspeitar que as condições que um dia deram origem ao Holocausto não foram radicalmente transformadas. Se havia algo em nossa ordem social que tornou possível o Holocausto em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então” (BAUMAN, 1998, p. 109). É notável, hoje em dia, um assombramento pelo Holocausto, se não for uma estupefação pela possibilidade de um novo Holocausto. Certas notícias e anúncios sobre o tema também demonstram esse assombramento, tais como “ONU aprova Declaração Universal para evitar novo Holocausto” (ONU, 2008) ou “Holocausto: ‘Unidos para evitar a conspiração do esquecimento” (SILVA, 2008), este último é o título de um discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia alusiva ao Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
O personagem o profeta, construído por Samuel Rawet, apesar de ser um imigrante judeu que veio para o Brasil buscar conforto no seio familiar, traz consigo os traumas e os horrores vividos naquele apavorante período da história mundial, a sombra do Holocausto o persegue. Esse conto é construído pela perspectiva de um narrador em terceira pessoa que observa e relata a razão pela qual o protagonista está deixando o país em que sua família estabeleceu residência 30 anos atrás. O profeta é um velho judeu que foi procurar conforto e compreensão no ambiente familiar, “vislumbrou, porém, um ligeiro engano” (RAWET, 1972, p. 25). Logo percebe que ele e sua família habitavam mundos diferentes, uma vez que as experiências eram opostas. Enquanto o profeta estava na Europa vivenciando a Segunda Guerra Mundial e a morte arrepiadora reservada aos judeus, a família de seu irmão estava, provavelmente, no Brasil conquistando fortuna e vivendo uma vida tranqüila. O personagem o profeta é assombrado pelas lembranças do Holocausto, estas não permitem que ele se integre a sua família de origem. O protagonista os considera “gordos senhores da vida e da fartura” (RAWET, 1972, p. 27). O profeta toma o “aspecto de coisa curiosa” devido à experiência sui generis da Shoah. Ele é a “personificação de um jornal do Holocausto que a família não quer ler” (IGEL, 1997, p. 191). Portanto, ele retorna para sua terra natal – que segundo a alusão do narrador é em algum país europeu – em busca de semelhantes, não em termos de laços familiares e sim em memórias e experiências.
A representação de Rawet do Holocausto é singular. As palavras Holocausto, Alemanha, nazismo ou nazistas, e campos de concentração não são sequer mencionadas. Não há uma representação da vida nos campos de concentração ou extermínio, como acontece na
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autobiografia É isto um homem? escrita por Primo Levi. O Profeta é um conto ficcional que retrata um judeu sobrevivente do Holocausto no pós-guerra. Desse modo, a narrativa de Rawet ultrapassa as cercas de arame farpado dos campos de concentração, não é uma “narrativa do Lager” (OLMI, 2008). Lager significa campos de concentração, em alemão. O personagem o profeta está, provavelmente, no Brasil dos anos 50, ele ultrapassa o tempo (1939-1945) e o espaço (Alemanha e Polônia), convencionalmente, destinados ao Holocausto. Os campos de concentração são presentificados a partir de intensas recordações dos horrores acontecidos nesse evento histórico, que insistem em configurar suas novas experiências.
Primo Levi foi um judeu italiano sobrevivente do Holocausto, feito prisioneiro quando contava com 25 anos, em um campo em Fossoli na Itália, ficou ali enquanto esperava sua quase imediata deportação para Auschwitz. Esteve, durante cerca de um ano até o final da guerra, em Auschwitz-Birkenau, onde exerceu em novembro de 1944 a sua profissão de homem livre, a manipulação química. Primo Levi, no livro É isto um homem? faz uma releitura da sua vida em tal lugar. O químico ficou mundialmente conhecido por esta profunda autobiografia, chegando a ganhar o Prêmio Campiello, uma das láureas literárias mais importantes da Itália, em 1963. Primo Levi se delonga em páginas inteiras na descrição da rotina dos campos, no trabalho forçado e no almoço. Considera-se esta obra uma narrativa tradicional do Holocausto, que está cercada pelos arames farpados dos campos de concentração nazistas.
Já Imre Kertész, apesar de construir uma biografia, já transgride certos padrões. Judeu húngaro também sobrevivente do Holocausto, ele escreveu Sem Destino. Kertész foi deportado para Auschwitz-Bikernau e logo em seguida para Buchenwald quando tinha quinze anos, esteve lá durante os anos de 1944 e 1945, até os nazistas serem vencidos e os campos liberados. Tudo isso foi narrado conforme a vida de prisioneiro do seu personagem chamado Gyurika, que tinha a mesma idade e que foi confinado no mesmo período e passou pelos dois citados campos de concentração, todavia, este esteve em um campo a mais do que o autor do livro: o de Zeitz. Sem Destino, claro, representa um Holocausto repleto de horrores e massacres, porém as precárias alegrias e risadas, e elas realmente existiam, eram os aspectos mais marcantes para o protagonista, que prefere relembrar a felicidade e as chacotas com os amigos do que as inúmeras tristezas e espancamentos. “Pois lá, entre durezas, havia, na pausa das torturas, alguma coisa que se assemelha à felicidade. Todos perguntam apenas das
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condições, do ‘horrores’, ao passo que, para mim, a experiência mais memorável é esta” (KERTÉSZ, 2003, p. 175).
Samuel Rawet nasceu no dia 23 de junho de 1929, em Klimontov, Polônia, e imigrou para o Brasil, juntamente com sua família, em 1936. Ele foi um engenheiro e escritor de origem judaica, que fez parte da equipe de engenheiros do poeta Joaquim Cardozo, ajudando na construção da nova capital, Brasília. Apesar de ter passado a infância e parte da juventude entre os bairros de Leopoldina, Ramos e Olaria, subúrbios do Rio de Janeiro, em 1956 se mudou para Brasília onde foi funcionário da Secretaria de Viação e Obras do Distrito Federal. No dia 25 de agosto de 1984 foi encontrado morto no seu apartamento em Sobradinho, cidade satélite de Brasília, já era um cadáver de quatro dias. Desse modo, ele não vivenciou a Segunda Guerra Mundial, pois imigrou pouco antes da maior explosão do antissemitismo na Europa. Como Rawet declarou: “cheguei em 1936. Foi antes da guerra e não me lembro que tenhamos saído por causa da guerra que já se anunciava, ou simplesmente num fluxo de imigração que houve dos países da Europa Oriental para a América” (WALDMAN, 2003, p. 69).
Assim sendo, Rawet como um “não-sobrevivente” e sim como um imigrante, elegeu uma representação experimental e visivelmente ficcional, sendo o Holocausto representado tal como a memória, em fragmentos. O vivido do personagem o profeta adquire nova roupagem, em relação aos romances É isto um homem? e Sem Destino. Essa representação estruturada por Rawet ultrapassa as cercas de arme farpado dos campos de concentração ao relembrar os horrores do Holocausto como uma forma de agravar a situação de solidão e incompreensão vivida neste país estrangeiro, Brasil, por seu protagonista. Como se percebe na seguinte asseveração: “O medo da solidão aterrava-o mais pela experiência adquirida no contacto diário com a morte” (RAWET, 1972, p. 24). A representação do Holocausto é construída do presente em direção ao passado, assim como acontece com a memória. As lembranças do personagem o profeta são uma forma de esclarecer ou explicar a sua atual situação de isolamento, de exílio. Relembrando Ruth Kluger, Márcio Seligmann-Silva declara que “apenas no fim do caminho percebemos o entrecruzar constante do passado com o presente. Vemos que o passado mora e é sempre reconstruído no presente” (SELIGMANN-SILVA, 2009).
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Portanto, o Holocausto, em O Profeta, é construído por sombras aterrorizantes que perpassam sua memória, visto que até as penumbras, formadas pela noite, o lembram aqueles dias e noites vividos como prisioneiro. “As formas na penumbra do quarto (dormia com o neto) compunham cenas que não esperava rever. Madrugadas horríveis e ossadas. Rostos de angústia e preces evolando das cinzas humanas. As feições da mulher apertando o xale no último instante” (RAWET, 1972, p. 29). O tecido histórico corrói as relações sociais, o que dificulta a adaptação ao novo país. Como o próprio narrador afirma “esquecer o acontecido, nunca”, pois é um conto essencialmente memorialista. E “Auschwitz pode ser compreendido como uma das maiores tentativas de ‘memoricídio’ da história” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 51). Assim, o protagonista, realmente, trava uma luta contra o esquecimento. A única solução é retornar a sua terra natal em busca de conforto e compreensão que não encontrou no seio familiar. Sua identificação acontece no fluido espaço da memória, e não nos rígidos traços consanguíneos.
Nota-se que a memória se torna um lugar para o pertencimento, visto que “a guerra o despojara de todas as ilusões anteriores e afirmara-lhe a precariedade do que antes era sólido” (RAWET, 1972, p. 27). No conto de Rawet, o personagem o profeta era um fervoroso religioso que teimava relembrar aquelas histórias tristes que tanto aborreciam a sua família. Seus familiares se perguntavam: “Que quer com tudo isso? Porque nos atormenta com coisa que não nos dizem respeito?” (1972, p. 28). Assim, retomando o significado do vocábulo profetai, sua família estabelecida no Brasil apelidou pejorativamente este parente distante que tanto insistia em expressar seus traumas, alcunha esta que deu título ao conto, O Profeta. Ele mantinha fielmente os rituais judaicos, sempre freqüentava a sinagoga, enquanto que “a displicência da maioria tumultuara uma prece” (RAWET, 1972, p. 27). O protagonista seguia a “religião judaica que é antes de mais nada estruturada no culto da memória” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 54), seu pertencimento é arquitetado dentro de experiências semelhantes, de lembranças e memórias análogas. De modo que “concluiu ser impossível afinidade, pois as experiências eram opostas. A sua amarga. A outra, vitoriosa” (RAWET, 1972, p. 29). Ele busca o amargor das lembranças, aqueles que eram atormentados pelo horror, assim como ele.
Percebe-se também que a necessidade de relembrar o Holocausto demonstra esse assombramento atual, pois a memória não permite que esse tema se perca no esquecimento.
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Parece haver uma associação entre o esquecimento com a possibilidade de um novo Holocausto. A amnésia traria maiores possibilidades de outra atrocidade semelhante. A lembrança frisa quão assombrosa foi a matança sistemática para evitar que volte a ser uma possibilidade. Portanto, por persistir em falar e recordar as experiências vividas em Auschwitz, o personagem o profeta acaba por assumir uma situação marginal e silenciada, o que para uma sobrevivente que precisa testemunhar como forma de catarseii é uma posição impossível, insustentável, por isso a necessidade da regressar à Europa. O relato sobre os campos de concentração era uma maneira de aliviar parte do peso que o profeta carregava por ter vivenciado o extermínio de seres humanos em massa. O narrador declara: “calou. E mais que isso, emudeceu. Poucas vezes lhe ouviram a palavra, e não reparam que se ia colocando numa situação marginal” (RAWET, 1972, p. 28).
O protagonista o profeta ainda está ali isolado pela barreira da língua, ele falava somente o iídiche e podia se comunicar apenas com o seu irmão e a mulher dele, parentes que pouca atenção lhe davam. O único recurso que lhe cabe é o silêncio, ele está deslocado, à deriva, pelas terríveis sombras da “noite horrível” (RAWET, 1972, p. 26), expressão do narrador para se referir ao Holocausto. Porém, esse sobrevivente necessita falar, relembrar e, de certa forma, reviver os horrores da Shoah, e por isso ele está no navio, de volta para sua terra, em busca de ouvidos que o ouçam e o consolem. Nas palavras de Seligmann-Silva, ao testemunhar suas memórias, o passado “sofre um desdobramento que eventualmente pode aliviar o peso da carga da memória traumática” (SELIGMANN-SILVA, 2009). A ambição do profeta é justamente esse alívio, a tranquilidade de se identificar com outro ser por meio do volúvel espaço da memória.
Fato é que vivemos na “era do testemunho”. O Holocausto possui tanta notoriedade porque é reestruturado através dos testemunhos, dos relatos biográficos de seus sobreviventes. Há uma “cultura da memória” (SARLO, 2007). Houve uma reabilitação da história oral, que incentivou a grande produção e as publicações de biografias e autobiografias. Hoje em dia, narram-se histórias genealógicas (pais, avôs, irmãos), como se houvesse a mesma necessidade que leva a mãe a descrever, para o filho, que aqueles “bebês nus nas fotografias amareladas, estatelados no berço ou sobre mantas, somos nós!” (ANDERSON, 2005, p. 266). A memória comprova que a subjetividade e a fragmentação são aspectos correntes na nossa sociedade contemporânea.
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Quando se fala sobre o Holocausto, a priori, espera-se que haja um compromisso com os fatos, com a “realidade”, contudo, como Samuel Rawet já suspeitava, “o Holocausto exige mais do que nunca a literatura para podermos enfrentar a realidade da violência” (SELIGMANN-SILVA, 2009). No momento em que Rawet elegeu a ficção para representar seu Holocausto isso não significou necessariamente a ruptura do “pacto autobiográfico” (LEJEUNE, 2008). Nas biografias, há um pacto de confiança entre o leitor e autor, no qual o primeiro deveria ser convencido pelo segundo da veracidade dos fatos contidos no romance, como acontece em É isto um homem?, e, de certo modo, em Sem Destino. No conto O Profeta, Rawet não requer a retórica do fato, ainda assim, consegue um “efeito de real” (BARTHES, 1984, p. 131-136), pois obtém a sensação de veracidade do leitor. No “efeito de real” cria-se uma “ilusão referencial” onde se imagina estar em contato, a partir da leitura da obra literária, com a realidade concreta enquanto que se está, na realidade, dando significado a essa realidade encenada.
O conto deve ser encarado como se fosse realidade. Esse conceito retoma Wolfgang Iser: “a realidade representada no texto não deve ser tomada como tal; ela é referência de algo que ela não é, mesmo se este algo se torna representável por ela” (ISER, 2002, p. 973). Assim, Rawet traz uma representação extremamente inovadora, ao não manter um “pacto autobiográfico” mimético e tradicional com o leitor, e ainda assim representar com grande habilidade e sensibilidade o Holocausto. A despeito de ser uma ficção anunciada, o leitor mergulha na vida desse sobrevivente e se comove com os obstáculos que esse velho judeu enfrenta. O conto termina por demonstrar quão penoso é para o personagem o profeta abandonar sua família e ir em busca de novos ambientes e lembranças: “novamente os punhos cerrando e trançados, as têmporas apoiadas nos braços, e a figura negra, em forma de gancho, trepidando em lágrimas” (RAWET, 1972, p. 30).
Entretanto, ainda existem estudiosos que exigem a “realidade dos fatos” para representar solenemente o Holocausto. Um bom exemplo é Carlo Ginzburg que travou uma grande disputa com Hayden White porque este possui ideias libertárias sobre as representações deste evento histórico. Ginzburg, historiador e antropólogo italiano, no ensaio Unus testis – o extermínio dos judeus e o princípio da realidade censura White por este ter concepções mais inovadoras e experimentais sobre o Holocausto, contidas no texto Enredo e verdade na escrita da história. Ginzburg declara que “qualquer documento, a despeito de seu
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caráter mais ou menos direito, sempre guarda uma relação altamente problemática com a realidade. Mas a realidade (‘a coisa em si’) existe” (GINZBURG, 2007, p. 229). Enquanto para Hayden White, historiador americano conhecido por utilizar teorias literárias para a análise historiográfica, o realismo não é o melhor meio de se representar este acontecimento traumático: “[...] os modos de representação modernistas podem oferecer possibilidades de representar a realidade de ambos, o Holocausto e sua experiência, que nenhuma outra versão do realismo poderia fazer” (WHITE, 2006, p. 206). Ginzburg defende uma fórmula fixa, que seja moralmente respeitosa, para tratar o Holocausto, todavia White possui uma perspectiva que se acredita ser mais moderna e ampla sobre as imagens desse evento e, assim, decreta que qualquer representação é válida, contanto que seja eficiente.
Neste trabalho manifesta-se, pois, opinião similar a de Hayden White, já que, como afirma o pensador judeu Erich Auerbach, “escrever história é tão difícil que a maioria dos historiadores vê-se obrigada a fazer concessões à técnica do lendário” (AUERBACH, 1987, p. 16-17). O conto O Profeta ultrapassa as fronteiras da “coisa em si” ao se declarar como ficção e utilizar livremente a imaginação. Pois, assim como Rawet sugere, Jorge Semprún
insiste várias vezes na necessidade do registro ficcional para a apresentação dos eventos no campo de concentração. Apenas a passagem pela imaginação poderia dar conta daquilo que escapa ao conceito. Semprún e outros sobreviventes da Shoah sabem que aquilo que transcende a verossimilhança exige uma reformulação artística para a sua transmissão (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 384).
O fato de Rawet, em 1956, já ter publicado um conto ficcional que representa o Holocausto no período pós-guerra, demonstra a grande engenhosidade deste escritor e o coloca em posição de precursor, de vanguarda. Rawet não se deixou levar pela
violenta lógica binária, terrorista, maniqueísta, tão ao gosto dos literatos – fundo ou forma, descrição ou narração, representação ou significação – que nos leva a alternativas dramáticas e nos joga contra a parede e os moinhos de vento. Ao passo que a literatura é o próprio entrelugar, a interface (COMPAGNON, 2001, p. 138).
A literatura de Rawet se passa, justamente, ali: entre realidade e ficção, entre fatos e imaginação. Entre o silenciar e o desabafar. A impressão que se tem é que as tenebrosas recordações ecoam em todo o silêncio que lhe envolve. Assim o agudo silêncio que rodeia o protagonista assinala e tonifica a voz expressada por Rawet, seu enorme mal-estar.
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i Profeta, como é empregado na Bíblia, significa aquele que fala como acreditado mensageiro do Altíssimo Deus. Pode um profeta predizer, ou não, o futuro segundo a mensagem que Deus lhe der, mas a condição de vidente não é obrigatória. É aquele que louva à Deus.
ii Catarse é uma palavra utilizada em diversos contextos, como a tragédia, a medicina ou a psicanálise, que significa purificação, evacuação ou purgação. Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. Assim, adequando ao contexto do Holocausto, o ato de testemunhar, em parte, pode ser uma forma de purificar a consciência dos sobreviventes, de trazer-lhes paz.

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