segunda-feira, 25 de agosto de 2014

APOLOGÉTICA CONTEMPORÂNEA, TUDO ESTÁ NA BÍBLIA ESTUDE



Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Craig, William Lane
Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã / William Lane Craig;
tradução A. G. Mendes, Hans Udo Fuchs, Valdemar Kroker. — 2. ed. — São
Paulo: Vida Nova, 2012.
Título original: Reasonable faith.
Bibliografia
ISBN 978-85-275-0491-1
1. Apologética 2. Teologia - Estudo e ensino I. Título.
12-00783 CDD-239
Índice para catálogo sistemático:
1. Apologética : Defesa da fé : Cristianismo 239
WILLIAM LANE CRAIG
APOLOGÉTICA
CONTEMPORÂNEA
A VERACIDADE DA FÉ CRISTÃ
2ª EDIÇÃO AMPLIADA E ATUALIZADA
TRADUÇÃO
A. G. MENDES (CAPS. 3 E 4)
HANS UDO FUCHS - VALDEMAR KROKER
Copyright © 1984, 1994, 2008 de William Lane Craig
Título original: Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics
Traduzido da edição publicada por Crossway Books, uma Division of Good News Publishers
Wheaton, Illinois 60187, EUA
1.a edição: 2004
2ª edição: 2012
Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos
reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA,
Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970
www.vidanova.com.br
Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos,
eletrônicos, xerográficos, fotográficos, gravação, estocagem
em banco de dados, etc.), a não ser em citações breves,
com indicação de fonte.
ISBN 978-85-275-0491-1
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Supervis ão Editorial
Marisa S. K. de Siqueira Lopes
Coordenaç ão Editorial
Jonas Madureira
Revis ão
Valdemar Kroker
Coordenaç ão de Produç ão
Sérgio Siqueira Moura
Revis ão de Provas
Mauro Nogueira
Ubevaldo G. Sampaio
Diagramaç ão
Luciana Di Iorio
Capa
Wesley Mendonça
Todas as citações bíblicas, salvo indicação contrária, foram extraídas da versão Almeida Século 21,
publicada no Brasil com todos os direitos reservados pela Sociedade Religiosa Edições Vida Nova.
Para Jan, meu amor
“Muitas mulheres agem de maneira virtuosa,
mas tu superas a todas” (Pv 31.29)

Lista de figuras ..............................................................................................................9

Prefácio do autor .........................................................................................................11
Introdução ...................................................................................................................15
Parte 1: De Fide
1 Como sei que o cristianismo é verdadeiro? ..........................................................27
Parte 2: De Homine
2 O absurdo da vida sem Deus ...............................................................................61
Parte 3: De Deo
3 A Existência de Deus (1) ....................................................................................89
4 A Existência de Deus (2) ..................................................................................153
Parte 4: De Creatione
5 O problema do conhecimento histórico ............................................................201
6 A questão dos milagres ......................................................................................237
Parte 5: De Christo
7 A autocompreensão de Jesus .............................................................................275
8 A ressurreição de Jesus ......................................................................................319
Conclusão: Uma apologética superior .......................................................................387
Índice remissivo .........................................................................................................391
Sumário

3.1 Modelo de criação de quantum de Vilenkin....................................... 111

3.2 Representação cônica do modelo padrão do espaço-tempo................. 123
3.3 Modelo de estado estacionário............................................................ 124
3.4 Modelo oscilante................................................................................. 125
3.5 Modelos de flutuação no vácuo........................................................... 127
3.6 Modelo inflacionário caótico............................................................... 128
3.7 Modelo de gravidade quântica............................................................ 130
3.8 Cenário pré-Big Bang......................................................................... 133
3.9 Cenário ecpirótico cíclico.............................................................................134
3.10 Modelo oscilante com aumento de entropia....................................... 140
3.11 Nascimento de um universo bebê........................................................ 142
3.12 Bolhas de vácuo real num mar de falso vácuo...................................... 143
4.1 Perspectiva global de um universo-ilha............................................... 162
4.2 Perspectiva interna de um universo-ilha.............................................. 163
Lista de figuras

Sou grato à editora Crossway Books por me oferecer a oportunidade de revisar o

livro Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã1� para esta terceira edição em inglês
(segunda edição em português). Este livro, assim me parece, acabou se tornando a minha
“marca registrada”, e sou grato pela maneira em que o Senhor o usou na vida de muitas
pessoas. Conforme a providência divina, o convite para produzir esta edição revisada veio
aproximadamente na mesma época do lançamento do nosso novo ministério Reasonable
Faith, ancorado na internet no site www.reasonablefaith.org, em que pode ser encontrada
uma grande variedade de material suplementar. O lançamento de Reasonable Faith torna
especialmente apropriada a aparição de uma nova edição deste livro.
As alterações na terceira edição consistem, em sua maioria, em ampliações e atualizações
do conteúdo e não de retratações, o que me deixou bastante feliz. Ao revisar o livro
não consegui evitar de me surpreender diante do fato de que embora os nomes tenham
mudado, as objeções e suas respostas em grande parte continuam as mesmas. O capítulo
crucial sobre a existência de Deus foi expandido em dois capítulos. Manter o livro com
aproximadamente a mesma extensão foi possível graças à eliminação do capítulo sobre
a confiabilidade histórica do Novo Testamento, um capítulo que um antigo editor havia
insistido em incluir na segunda edição, apesar do meu protesto. A inclusão desse capítulo
(que em si é uma peça de argumentação sólida escrita a meu pedido por Craig Blomberg)
perpetuou a impressão equivocada, demasiado comum entre os evangélicos, de que a
questão histórica da autocompreensão radical de Jesus e de sua ressurreição depende da
demonstração de que os Evangelhos são em geral documentos históricos confiáveis. A lição
preponderante de dois séculos de crítica bíblica é que tal pressuposição é falsa. Mesmo
documentos que são em geral inconfiáveis podem conter porções historicamente valiosas,
e será tarefa do historiador escavar esses documentos para encontrar essas preciosidades.
1 Publicado anteriormente no Brasil sob o título “A veracidade da fé cristã: uma apologética contemporânea”
(N. do E.).
Prefácio do autor
12 apologética contemporânea
O apologista cristão ao buscar estabelecer, por exemplo, a historicidade do túmulo vazio
de Jesus não precisa e não deveria ser encarregado da tarefa de primeiramente demonstrar
que os Evangelhos são, em geral, documentos historicamente confiáveis. Você talvez se
pergunte como é possível demonstrar que os relatos dos Evangelhos sobre a descoberta do
túmulo vazio de Jesus podem ser comprovados como sendo, em sua essência, historicamente
confiáveis sem primeiro se demonstrar que os Evangelhos são, em geral, historicamente
confiáveis. Leia o capítulo 8 e descubra por você mesmo.
Apologética contemporânea tem como propósito primordial servir de livro-texto para
cursos de apologética cristã. Aliás, o livro começou como um conjunto de aulas para minhas
turmas de apologética. Depois foi aperfeiçoado por anos de experiência com o ensino e
debates sobre questões relevantes nos campi em toda a América do Norte e na Europa.
O roteiro que ele traz reflete minha maneira de propor uma apologética positiva para a
fé cristã. Neste livro, não considero nem a história da apologética nem as alternativas
de
sistemas evangélicos de apologética; leituras complementares precisam ser sugeridas aos
alunos nessas duas áreas. Para a história da apologética, recomendo Avery Dulles, History
of apologetics [História da apologética] (Filadélfia, Westminster, 1971), obra-prima de
estudo e valiosa obra de referência. Para os sistemas evangélicos, Kenneth Boa e Robert
Bowman Jr. analisam as abordagens dos apologistas mais notáveis dos nossos dias em seu
livro Faith Has Its Reasons [A fé tem suas razões] (Colorado Springs: NavPress, 2001). A
fim de complementar o conhecimento no campo da apologética, o leitor precisa se valer
dessas outras leituras.
Este livro foi estruturado de acordo com os loci communes da teologia sistemática.
Os loci communes eram os chamados “lugares comuns”, os temas principais da teologia
protestante posterior à Reforma. Foi Melanchton, colega de Lutero, quem primeiro usou
esses “lugares comuns” como moldura para escrever sua teologia sistemática. Entre os loci
estudados com mais frequência estavam: de Scriptura sacra (doutrina das Escrituras), de
creatione (doutrina da criação), de peccato (doutrina do pecado), de Christo (cristologia), de
gratia (soteriologia), de ecclesia (eclesiologia) e de novissimus (escatologia).
Em quase todos esses loci o teólogo cristão depara com questões apologéticas. Já ouvi
dizer que a teologia contemporânea se tornou tão irracional e fideísta que a apologética já
não encontra lugar nos cursos ofertados por escolas de teologia das denominações tradicionais.
Mas isso não condiz com a realidade. Quando fiz o doutorado na Alemanha descobri
que, embora nos departamentos de teologia das universidades alemãs não se ofereçam
cursos de apologética per se, ainda assim a instrução teológica alemã está em si orientada
de forma bastante apologética. Em cursos como, por exemplo, cristologia ou soteriologia,
discute-se como tema principal uma diversidade de questões e desafios feitos à doutrina
cristã pela filosofia, ciência, história e outras disciplinas não cristãs. (Infelizmente, o resultado
dessa interação é a capitulação inevitável por parte da teologia e sua reclusão em
santuários doutrinários não empíricos, cuja segurança só é alcançada ao custo de se tornar
irrelevante e inverificável.) Incomodou-me saber que em nossos seminários evangélicos os
cursos de teologia dediquem tão pouco tempo a essas questões. Quanto tempo se gasta,
por exemplo, num curso evangélico sobre a doutrina de Deus com os argumentos a favor
da existência de Deus? Mas aí eu lembrei: Talvez os professores de teologia esperem que
você trate dessas questões na disciplina de apologética, visto que na minha instituição a
Prefácio do autor 13
apologética é oferecida como um curso separado. Quanto mais eu pensava sobre isso, mais
sentido fazia. Por isso, a fim de integrar a apologética no currículo teológico estruturei este
livro em torno de diversos temas apologéticos que surgem nos loci communes theologiae.
Em nosso espaço limitado, escolhi para estudo vários temas importantes nos loci de fide
(a fé), de homine (o homem), de Deo (Deus), de creatione (a criação) e de Christo (Cristo).
Tomei a liberdade de redistribuir esses loci, saindo da ordem normal na teologia sistemática
para uma ordem que segue a lógica da apologética. Quero dizer que nosso objetivo é montar
a defesa do cristianismo, e isso determina a ordem em que analisaremos os temas. Estou
bem ciente de outros temas interessantes e importantes, mas tive de omiti-los. Veremos,
porém, os temas cruciais para a defesa convincente da fé cristã.
No de fide, estudaremos a relação entre fé e razão; no de homine, como é absurdo viver
sem Deus; no de Deo, a existência de Deus; no de creatione, o problema do conhecimento
histórico e dos milagres; e, por fim, no de Christo, as afirmações que Cristo fez sobre si
mesmo e a historicidade da sua ressurreição. Nosso estudo de cada tema será dividido em
três partes. Primeiro veremos o contexto histórico do tema, para observar como pensadores
do passado lidaram com ele. Em segundo lugar, apresentarei e defenderei meus pontos de
vista pessoais sobre o tema, na tentativa de desenvolver uma apologética cristã sobre ele.
Em terceiro lugar, compartilharei alguns pensamentos e algumas experiências pessoais
sobre a aplicação deste material à evangelização. Em quarto lugar, reúno informações
bibliográficas sobre a literatura citada ou recomendada para leitura posterior.
É minha esperança sincera que Deus use este material para ajudar a capacitar uma
nova geração de cristãos inteligentes e articulados que estão cheios do Espírito e têm o
peso e o desejo ardente no coração de cumprir a Grande Comissão.
William Lane Craig
Talbot School of Theology

Que é apologética? Apologética (do grego apologia, “defesa”) é o ramo da teologia

cristã que procura apresentar uma explicação racional para as verdades afirmadas pela fé
cristã. Portanto,
apologética é principalmente uma disciplina teórica,
apesar de ter aplicação
prática. Além de ocupar-se, a exemplo do restante da teologia, com a expressão do nosso
Deus amoroso, a apologética serve especificamente para mostrar aos incrédulos a veracidade
da fé cristã, para fortalecer essa fé nos salvos e para estudar e apresentar as ligações entre
a doutrina cristã e outras verdades. Como disciplina teórica, portanto, a apologética não
tem como alvo principal ensinar a responder a questionamentos, a debater ou evangelizar,
mas como ciência ela ajuda a fazer tudo isso na prática. Isso significa que um curso de
apologética não tem o propósito de ensinar você a responder “assim e assado” quando
alguém pergunta “isso e aquilo”. Repetindo, a apologética é uma disciplina teórica que
tenta responder a esta pergunta: Que defesa racional se pode fazer da fé cristã? Por isso, a
maior parte do nosso tempo passamos tentando responder a essa pergunta.
Agora, é inevitável que isso vá desapontar algumas pessoas. Elas não estão interessadas
na explicação racional do cristianismo. Querem saber o que responder quando alguém
diz: “A igreja está cheia de gente hipócrita!”. Não há nada de errado com essa questão;
mas o fato é que essas questões práticas são logicamente secundárias às questões teóricas
e não podem, em nosso espaço limitado, ocupar o centro das atenções. O uso prático da
apologética deve fazer parte dos cursos e livros sobre evangelização.
Afinal, para que serve a apologética?
Algumas pessoas depreciam a importância da apologética como uma disciplina meramente
teórica. “Ninguém vem a Cristo por meio de argumentos”, elas dizem. “As pessoas não
estão interessadas no que é verdade, mas no que funciona para elas. Elas não querem respostas
intelectuais; querem ver o cristianismo na prática”. Creio que a atitude demonstrada
Introdução
16 apologética contemporânea
nessas afirmações é tanto míope quanto equivocada. Deixe-me expor três papéis vitais que
a disciplina da apologética tem hoje.
1. Formar a cultura. Os cristãos precisam enxergar além dos seus contatos evangelísticos
imediatos para captar o quadro mais amplo do pensamento e cultura ocidentais. Em geral,
a cultura ocidental é profundamente pós-cristã. É o produto do Iluminismo, que introduziu
na cultura europeia o fermento do secularismo que a essa altura já permeou toda a
sociedade ocidental. A marca do Iluminismo foi o “livre pensamento”, isto é, a busca do
conhecimento apenas por meio da razão humana desimpedida. Embora não seja de forma
alguma inevitável que tal busca leve obrigatoriamente a conclusões não cristãs e embora os
pensadores iluministas fossem em sua maioria teístas, o impacto generalizado da mentalidade
iluminista tem sido que os intelectuais ocidentais não consideram o conhecimento
teológico como algo possível de se obter. A teologia não é uma fonte de conhecimento
genuíno e portanto não é uma ciência (em alemão, uma Wissenschaft). A razão e a religião
são portanto incompatíveis entre si. Somente as deliberações das ciências físicas são aceitas
como orientações determinantes para a nossa compreensão do mundo, e a pressuposição
segura é que o retrato de mundo que emerge das ciências genuínas é um retrato amplo e
profundamente naturalístico. Quem sai em busca da razão de forma incansável e inabalável
até o fim será obrigatoriamente ateu, ou agnóstico, na melhor das hipóteses.
Por que essas considerações sobre cultura são importantes? Simplesmente porque o
evangelho nunca é ouvido isoladamente. Sempre é ouvido contra o pano de fundo do
ambiente cultural em que a pessoa vive. Uma pessoa criada num ambiente cultural em que
o cristianismo ainda é visto como uma opção intelectual viável tem uma abertura para o
evangelho que a pessoa secularizada não tem. À pessoa secular se pode sugerir que acredite
tanto em Jesus Cristo quanto em fadas e duendes! Ou, para dar uma ilustração mais realista,
é como sermos abordados na rua por um adepto do movimento Hare Krishna que nos
convida a crer em Krishna. Tal convite nos parece bizarro, esquisito e até engraçado. Mas
a uma pessoa nas ruas de Déli, tal convite pareceria, eu suponho, muito razoável e seria
motivo para uma reflexão séria. Temo que os evangélicos pareçam quase tão esquisitos às
pessoas nas ruas de Bonn, Estocolmo e Paris como os adeptos de Krishna.
O que nos espera na América do Norte, se continuarmos escorregando de forma descontrolada
para o secularismo, já é evidente na Europa. Embora a maioria dos europeus
mantenha uma filiação nominal ao cristianismo, somente 10% são cristãos praticantes,
e menos da metade desses têm orientação teológica evangélica. A tendência mais significativa
na afiliação religiosa europeia é o crescimento dos que eram classificados como
“não religiosos” de efetivamente 0% da população em 1900 para mais de 22% hoje. Como
resultado, o evangelismo é incomensuravelmente mais difícil na Europa do que nos Estados
Unidos. Tendo vivido durante treze anos na Europa, onde preguei evangelisticamente nos
campi universitários em todo o continente, posso testificar pessoalmente de como é duro
o solo. É até difícil fazer com que se ouça o evangelho.
Os Estados Unidos estão seguindo a certa distância nessa mesma estrada, com o Canadá
em algum ponto entre os dois. Se não quisermos que a situação se deteriore ainda
mais, é imperativo que formemos todo o clima intelectual da nossa cultura de tal maneira
que o cristianismo continue sendo uma opção viva para homens e mulheres pensantes.
Introdução 17
É por essa razão que os cristãos que depreciam o valor da apologética porque “ninguém
vem a Cristo por meio de argumentos” são tão míopes. Pois o valor da apologética se estende
muito além dos contatos evangelísticos imediatos da pessoa. A tarefa mais ampla da
apologética cristã é ajudar a criar e manter um ambiente cultural em que o evangelho possa
ser ouvido como uma opção intelectualmente viável para homens e mulheres pensantes.
No seu artigo “Christianity and Culture”, na véspera da controvérsia fundamentalista,
J. Gresham Machen, o grande teólogo de Princeton, advertiu solenemente:
Ideias falsas são o maior obstáculo à recepção do evangelho. Podemos pregar com o fervor
de um reformador e mesmo assim ganhar somente alguém que está vagando aqui e acolá,
se permitirmos que todo o pensamento coletivo da nação ou do mundo seja controlado por
ideias que, pela força irresistível da lógica, impedem que o cristianismo seja considerado
algo mais do que um engano inofensivo.1
Infelizmente, ninguém deu ouvidos à advertência de Machen, e o cristianismo
bíblico
retraiu-se para os cubículos intelectuais do fundamentalismo.
O anti-intelectualismo e a
erudição de segunda classe se tornaram a norma.
Já no seu tempo, Machen observou que “muitos gostariam que os seminários combatessem
os erros por meio do ataque a eles, a exemplo do que ensinam seus expoentes
populares”, em vez de confundir os alunos “com uma porção de nomes alemães desconhecidos
fora dos muros da universidade”.
Machen insistiu, porém, que, pelo contrário, é
crucial que os cristãos estejam atentos ao poder de uma ideia antes que ela ganhe expressão
popular. O procedimento dos estudiosos, disse ele,
está baseado simplesmente em uma profunda convicção de que ideias têm a capacidade de se
infiltrar. O que hoje é um tema de especulação acadêmica começa amanhã a mover exércitos
e derrubar impérios. Nesse segundo estágio, ele já foi longe demais para ser combatido; a
hora de detê-lo era quando ele ainda era um tema de debate entusiasmado.
Por isso, como
cristãos devemos tentar moldar o pensamento
do mundo para fazer que a aceitação do
cristianismo seja mais do que algo logicamente absurdo.2
Na Europa vimos o resultado amargo da secularização, que agora ameaça a América
do Norte.
Felizmente, nos Estados Unidos em anos recentes emergiu dos cubículos fundamentalistas
um evangelicalismo revitalizado que começou a enfrentar com seriedade o desafio de
Machen. Estamos vivendo numa época em que a filosofia cristã está experimentando um
renascimento genuíno, revigorando a teologia natural, numa época em que a ciência está
mais aberta à aceitação da existência de um Criador e Designer transcendental do cosmo
do que em qualquer época de memória recente, e numa época em que a crítica bíblica
está empreendendo uma nova busca do Jesus histórico que trata os evangelhos seriamente
como fontes históricas valiosas para a vida de Jesus e tem confirmado as linhas principais
do retrato de Jesus pintado nos Evangelhos. Estamos bem situados intelectualmente para
1 J. Gresham Machen, “Christianity and Culture”, Princeton Theological Review 11 (1913): 7.
2 Ibid.
18 apologética contemporânea
ajudar a reformular a nossa cultura de maneira tal a recuperar o terreno perdido, para que
o evangelho possa ser ouvido como uma opção viável para pessoas pensantes. Imensas
portas de oportunidades estão abertas agora diante de nós.
Agora, consigo imaginar o pensamento de alguns leitores: “Mas não estamos vivendo
numa cultura pós-moderna em que esses apelos à apologética tradicional já não são eficazes?
Visto que os pós-modernos rejeitam os cânones de lógica tradicionais, a racionalidade e a
verdade, os argumentos racionais a favor da verdade cristã já não funcionam! Em vez disso,
na cultura de hoje deveríamos simplesmente compartilhar a nossa história e convidar as
pessoas a participarem dela”.
Na minha opinião, não pode haver pensamento mais equivocado do que esse. A ideia
de que vivemos numa cultura pós-moderna é um mito. Aliás, uma cultura pós-moderna
é impossível; ela é completamente inabitável. Ninguém é pós-moderno quando o assunto
é ler a bula de um remédio em contraste com a bula de um veneno de rato. Se você está
com dor de cabeça, é melhor acreditar que textos têm significado objetivo! As pessoas
não são relativistas quando se trata de questões de ciência, engenharia e tecnologia; mas
são relativistas e pluralistas quando se trata de questões de religião e ética. Mas isso não é
pós-modernismo; isso é modernismo! Isso vem do velho positivismo e verificacionismo,
que defendiam que qualquer coisa que não se pode experimentar com os cinco sentidos é
simplesmente uma questão de gosto e expressão emotiva pessoal. Vivemos num ambiente
cultural que continua sendo profundamente modernista. As pessoas que acham que
vivemos numa cultura pós-moderna interpretaram de forma muito equivocada a nossa
situação cultural.
Na verdade, acho que levar as pessoas a crer que vivemos numa cultura pós-moderna é
um dos enganos mais astuciosos que Satanás jamais inventou. “O modernismo é passado”,
ele nos diz. “Vocês já não precisam se preocupar com ele. Esqueçam dele! Está morto e
enterrado”. Enquanto isso, o modernismo, fazendo de conta que está morto, surge de novo
com a roupagem interessante e extravagante do pós-modernismo, com a máscara de um
novo competidor. “Seus antigos argumentos e sua velha apologética já não são eficazes
contra essa nova aparição”, ouvimos dizer. “Podem descartá-los; já se tornaram inúteis.
Simplesmente contem a sua história!”. E de fato, algumas pessoas, cansadas das longas
batalhas com o modernismo, na verdade saúdam o novo visitante com alívio. E assim Satanás
nos engana e nos convence a abdicarmos voluntariamente da lógica e das evidências,
as nossas melhores armas, garantindo assim de repente o triunfo do modernismo sobre
nós. Se adotarmos esse curso de ação suicida, as consequências para a igreja na próxima
geração serão catastróficas. O cristianismo será reduzido a apenas mais uma voz numa
cacofonia de vozes concorrentes, cada uma contando a sua própria história e ninguém se
apresentando como a verdade objetiva sobre a realidade, enquanto o naturalismo científico
forma a visão da nossa cultura sobre como o mundo é de fato.
Agora, sem dúvida, não é necessário dizer que ao fazermos apologética precisamos
agir de forma relacional, humilde e agradável; mas isso dificilmente é uma percepção
original do pós-modernismo. Desde o início os apologistas cristãos sabiam que devemos
apresentar as razões da nossa esperança “com mansidão e temor” (1Pe 2.15,16). Não é
necessário abandonar os cânones da lógica, racionalidade e verdade a fim de exemplificar
essas virtudes bíblicas.
Introdução 19
A apologética é, portanto, vital na fomentação de um ambiente cultural em que o
evangelho pode ser ouvido como uma opção viável para pessoas pensantes. Na maioria dos
casos, não serão argumentos ou evidências que levarão as pessoas à fé em Cristo — essa é
a meia-verdade vista pelos detratores da apologética —, não obstante, será a apologética
que, ao tornar o evangelho uma opção crível para as pessoas, lhes dará, por assim dizer, o
aval intelectual para crer. Por isso, é vitalmente importante que preservemos um ambiente
cultural em que o evangelho é ouvido como uma opção viva para pessoas pensantes, e a
apologética será essencial para ajudar a produzir esse resultado.
2. Fortalecimento dos cristãos. Não somente é fato que a apologética é vital para a formação
da nossa cultura, mas ela também tem um papel vital na vida de pessoas individuais.
Um desses papéis é o fortalecimento dos cristãos. A adoração cristã contemporânea tende
a concentrar o foco na promoção da intimidade emocional com Deus. Embora isso seja
algo bom, as emoções só levam a pessoa até certo ponto, e então ela precisará de algo mais
substancial. A apologética pode ajudar a prover parte dessa substância.
Ao pregar em igrejas em todo o país, frequentemente vejo pais vindo ao meu encontro
logo depois do culto, e eles dizem algo como: “Ah se você tivesse vindo aqui há dois ou
três anos! Nosso filho [ou nossa filha] tinha perguntas sobre a fé que ninguém na igreja
sabia responder, e agora perdeu a fé e está longe do Senhor”.
Fico com o coração dilacerado quando encontro pais nessas condições. Infelizmente,
sua experiência não é incomum. Nos colégios e faculdades os adolescentes e jovens
são assaltados intelectualmente com todo tipo de cosmovisão não cristã associada a um
relativismo opressor. Se os pais não tiverem a mente engajada na sua fé e não tiverem
argumentos sólidos a favor do teísmo cristão e respostas boas às perguntas de seus filhos,
então estaremos correndo o sério perigo de perder os nossos jovens. Já não é suficiente
ensinar histórias bíblicas a nossos filhos; eles precisam de doutrina e apologética. Francamente,
para mim é difícil entender como as pessoas hoje se arriscam a serem pais sem
terem estudado apologética.
Infelizmente, as nossas igrejas em termos gerais jogaram a toalha nessa área. Não é
suficiente que os grupos e as classes de escola dominical de jovens concentrem suas atividades
no entretenimento e em simpáticas ideias devocionais. Precisamos treinar os nossos
filhos para a guerra. Não podemos arriscar enviá-los aos colégios e universidades armados
com espadas e armaduras de plástico. O tempo para brincadeiras já passou.
Precisamos de pastores que tenham sido treinados em apologética e estejam engajados
intelectualmente com a nossa cultura para que saibam pastorear os seus rebanhos em meio
aos lobos. Por exemplo, os pastores precisam saber alguma coisa sobre a ciência contemporânea.
John La Shell, pastor de uma igreja batista, adverte que “os pastores não podem
mais se dar ao luxo de ignorar os resultados e as especulações da física moderna. Essas
ideias estão se sedimentando na consciência comum por meio de revistas, artigos populares
e até romances. Se não as conhecermos, logo nos veremos num beco intelectual, incapazes
de lidar com qualquer pessoa bem informada”.3 O mesmo vale para filosofia e crítica
bíblica: de que serve pregar sobre, digamos, valores cristãos se uma grande porcentagem
3 Nota crítica de Ian G. Barbour, Religion in an Age of Science, revisada por John K. La Shell, Journal of
the Evangelical Theological Society 36 (1993): 261.
20 apologética contemporânea
de pessoas, incluindo as cristãs, diz que não crê em verdades absolutas, ou de que serve
simplesmente citar a Bíblia em seu estudo bíblico evangelístico se alguém no grupo diz que
o Jesus Seminar provou que os evangelhos não são confiáveis? Se os pastores não fizerem a
sua lição de casa nessas áreas, restará uma parte substancial da população — infelizmente
os mais inteligentes e por isso os mais influentes na sociedade, como médicos, educadores,
jornalistas, advogados, executivos etc. — que permanecerá sem ser alcançada por nosso
ministério.
Nas minhas viagens, também tive a experiência de encontrar outras pessoas que me
contaram como foram salvas da apostasia aparente por meio da leitura de um livro de
apologética ou de assistir ao vídeo de um debate. No caso delas, a apologética foi o meio
pelo qual Deus gerou a sua perseverança na fé. É verdade, sem dúvida, que a apologética
não pode garantir a perseverança, mas pode ajudar, e em alguns casos pode, de acordo com
a providência de Deus, ser até necessária. Por exemplo, depois de uma palestra na Universidade
Princeton sobre argumentos a favor da existência de Deus, veio ao meu encontro
um jovem que queria falar comigo. Com dificuldade visível para reprimir as lágrimas, ele
me contou que alguns anos antes lutara com muitas dúvidas e estivera à beira de abandonar
a sua fé. Alguém então lhe dera um vídeo de um dos meus debates. Ele disse: “Isso me
salvou de perder a minha fé. Não sei como lhe agradecer”.
Eu disse: “Foi o Senhor que o salvou de cair da fé”.
“Sim”, ele disse, “mas o Senhor usou você. Não tenho como lhe agradecer”. Eu lhe disse
como fiquei empolgado com a sua experiência e lhe perguntei sobre seus planos para o
futuro. “Estou me formando este ano”, ele me disse, “e estou planejando ir para o seminário.
Quero me preparar para o pastorado”. Louvado seja Deus pela vitória na vida desse jovem!
Mas a apologética cristã faz muito mais do que proteger contra a apostasia. Os efeitos
positivos e edificantes do treinamento apologético são muito mais evidentes. As igrejas
norte-americanas estão cheias de cristãos intelectualmente neutros. Como cristãs, a
mente dessas pessoas está sendo desperdiçada. Um dos resultados disso é uma fé imatura
e superficial. Pessoas que simplesmente andam na montanha russa da experiência emocional
estão roubando de si mesmas uma fé cristã mais rica e profunda ao negligenciar o
lado intelectual dessa fé. Sabem pouco das riquezas da compreensão profunda da verdade
cristã, da confiança inspirada pela descoberta de que sua fé é lógica e se coaduna com os
fatos da experiência, da estabilidade trazida à vida pela convicção de que a fé é verdade
objetiva. Um dos resultados mais gratificantes das conferências anuais de apologética
organizadas pela Evangelical Philosophical Society [Sociedade Filosófica Evangélica] em
igrejas locais durante o curso das nossas convenções anuais é ver as luzes que acendem na
mente de muitos leigos quando eles descobrem pela primeira vez na sua vida que há boas
razões para crer que o cristianismo é verdadeiro e que há uma parte do corpo de Cristo
que eles nunca conheceram que sabem está se debatendo regularmente com o conteúdo
intelectual da fé cristã.4
Também vejo os efeitos positivos da apologética quando participo de debates nos campi
universitários. Tipicamente sou convidado aos campi para debater com algum professor
4 Para maiores informações sobre essas conferências extraordinárias de leigos, ver em www.epsociety.org.

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