segunda-feira, 16 de março de 2015

A maior verdade, é só Jesus SALVA!



Introdução ao Livro de Ezequiel - O teste dos limites teológicos
Ezequiel era sacerdote e pertencia à família sacerdotal da linhagem de Zadoque, e foi um
dos que foram levados prisioneiros na primeira deportação babilônica em 597 a.C. Seu
nome significa "Deus fortalece", aliás, bem apropriado para o momento que os hebreus
estavam vivendo. Sua profecia, por ser um subproduto da primeira parte do cativeiro, se
diferencia do profetismo clássico pré-exílio.
O pensamento corrente em Israel é que Javé estava restrito à Palestina e ao Templo de
Jerusalém. No exílio esta ideia foi posta em xeque, pois os judeus aprenderam que Javé
poderia ser adorado fora dos limites da Terra Prometida.
Ele era casado e seu casamento corria bem, até que Javé anunciou a morte de sua
esposa que serviria como um sinal do sofrimento que os hebreus enfrentariam.
Seu livro sempre fez parte do cânon hebraico, mas, em virtude das diferenças em relação
às cerimônias do templo e das leis mosaicas (Nm. 28:11 e Ezequiel 46:6), eruditos
judeus, posteriormente, chegaram a questionar sua canonicidade até que os rabinos
restringiram seu uso quando as divergências fossem solucionadas na "vinda de Elias" (Ml.
4:5). O capítulo 1 foi proibido nas sinagogas e a leitura privada só era permitida àqueles
que tivessem mais de trinta anos.
De acordo com a análise literária do livro de Ezequiel podemos afirmar que ele mesmo
escreveu suas profecias, em virtude do uso constante dos pronomes "eu", "me" e "meu".
O estilo e uniformidade de sua escrita e linguagem também contribuem para corroborar a
tese de Ezequiel como autor único da obra que leva seu nome.
A data da produção do livro de Ezequiel é determinada principalmente em razão da
evidência interna de treze profecias datadas a partir do dia, mês e ano do exílio do rei
Joaquim. Seu chamado é do ano de 593 a.C., e sua última profecia, contra o Egito, de
571 a.C. Uma vez que Ezequiel nada fala sobre o libertação de Joaquim em 562 a.C. é
possível supor que o registro das suas atividades proféticas tenha ocorrido entre 571 e
562 a.C.
Quanto ao local onde deu-se suas atividades é questão de intenso debate acadêmico,
pois Ezequiel é muito preciso quando cita a localização do templo em sua visão nos
capítulos 8 a 11. Evidências dentro do próprio texto apontam para a Babilônia, entretanto,
não há como explicar seu registro dos acontecimentos em Jerusalém estando na
Babilônia, exceto pelo verso 8:3, quando Javé o arrebatou até lá.
A profecia de Ezequiel foi uma consequência dos atos políticos e religiosos do rei
Manassés quando decretou o baalismo como religião oficial (2 Rs. 21:1-9). Este decreto
estabeleceu, inevitavelmente, o fim da nação de Judá (2 Rs. 21:9-15; 24:3-4).
Josias, neto de Manassés, foi o último a tentar restabelecer o padrão ético, moral e
religioso de Judá, quando o livro da Lei (provavelmente Deuteronômio) foi redescoberto (2
Rs. 22:3-13). Entretanto, com a morte de Josias em 609 a.C. (2 Rs. 23:28-30; 2 Cr. 35:20-
27), pelo faraó egípcio Neco, sua tentativa não teve continuidade.
Após este episódio, todos os demais reis de Judá foram marionetes dos reinos que
procuravam dominar a região da Palestina, que não obedeceram às regras da Aliança e
não se arrependeram de seus atos, mesmo com grande volume de mensagens proféticas.
O cronista vê nesta situação um caminho sem retorno (2 Cr. 36:15-16).
O faraó Neco deixou os filhos de Josias, Jeoacaz e Eliaquim, como vassalos do Egito,
porém Jeoacaz foi destituído por insubordinação (2 Rs. 23: 31-35). Então Eliaquim,
também chamado de Jeoaquim, governou Jerusalém por onze anos (2 Rs. 23:34 - 24:7),
cujo governo Jeremias avaliou como corrupto, idólatra, com injustiças sociais,
assassinatos, roubos, extorsão e abandono da Aliança com Javé (Jr. 22:1-17).
Em 605 a.C. na batalha de Carquêmis, o Egito fugiu diante da Babilônia (2 Rs. 24:7) e
Judá teve que pagar tributo a Nabucodonosor. Porém Jeoaquim rebelou-se contra a
Babilônia e o resultado foi o cerco de Jerusalém em 598-597 a.C. quando Jeoaquim
morreu. Joaquim, seu filho, governou em seu lugar por apenas três meses até que os
babilônios invadiram e destruiriam a cidade (2 Rs. 24:1-17).
A partir daí a família real e outras 10 mil pessoas da elite judaica foram levadas para a
Babilônia, e, entre elas estava Ezequiel, que aproveitou o exílio de Joaquim para datar
muitas de suas profecias aos hebreus deportados (Ez. 1:1-3; 8:1).
Estrutura de Ezequiel
O livro de Ezequiel pode ser dividido em três partes, da seguinte forma:
● Contra Jerusalém
● O chamado de Ezequiel - 1 a 3
● Símbolos e oráculos I - 4 a 7
● Visão de Jerusalém - 8 a 11
● Símbolos e oráculos II - 12 a 15
● Adultério - 16
● Parábola - 17
● Responsabilidade pessoal - 18
● O lamento da leoa - 19
● Rebelião - 20 a 22
● As duas prostitutas - 23
● A panela - 24
● Contra as nações - 25 a 32
● A restauração de Jerusalém
● Símbolos e oráculos - 33 a 35
● Os montes de Israel são confortados - 36
● Ossos secos - 37
● Contra Gogue e Magogue - 38 e 39
● A restauração do Templo - 40 a 43
● Cerimônias e rituais do Templo - 44 a 46
● As fronteiras e a divisão de Israel - 47 e 48
Treze oráculos de Ezequiel são datados, e tudo indica que foram transmitidos oralmente
(3:10-11; 14:4; 20:27; 24:1-3; 43:10) aos habitantes hebreus da Babilônia e registrados
posteriormente. Uma evidência pode ser a falta de ordem cronológica em alguns oráculos,
que pode indicar que o próprio Ezequiel tenha compilado este livro, pois um organizador
distinto teria provavelmente se preocupado com a organização cronológica.
Em termos de estilo Ezequiel incorpora discursos proféticos, poesia, e drama. Este último
quesito, inclusive, choca o povo exilado com uma linguagem por vezes grosseira quando
utiliza o simbolismo da prostituição nos capítulos 16 e 23. Outros recursos estilísticos
usados por Ezequiel foram a alegoria e a teatralização simbólica, rejeitados pelos cativos
(Ez. 20:49). As alegorias de Ezequiel tinham por objetivo representar de forma simples a
queda de Jerusalém, que aconteceria em breve, e o fim da nação de Judá. As
dramatizações simbólicas tinham o mesmo objetivo. Estas encenações dramáticas
reforçavam as profecias de julgamento que Javé prometera. Abaixo estão relacionadas
estas encenações:
Texto Encenação Significado
4:1-3 Desenha a cidade de
jerusalém em um tijolo
A cidade será cercada
4:4-8 Deita-se sobre seu lado
esquerdo por 390 dias e
sobre o direito por 40 dias.
Os anos de pecado e a
punição de Judá
4:9-17 Come alimentado controlado
e cozido em fezes
Fome em Jerusalém à época
do cerco
5:1-12 Raspa a cabeça com uma
espada e divide em três
partes iguais com destinos
distintos
O destino dos que ficaram
em Jerusalém à época do
cerco
12:1-12 Cava um buraco na parede
e passa levando bagagens
do exílio
O exílio será inevitável
21:18-23 Traça duas estradas das
quais uma leva a Jerusalém.
O rei decidiria por meio de
sortes qual caminho seguir
Javé levaria o rei da
Babilônia para Jerusalém
25:15-24 Morte da sua esposa O povo escolhido morreria
ou seria exilado
A estrutura das profecias de Ezequiel aponta para a soberania de Javé. Os capítulos 1 a
24 refletem o julgamento que recaiu sobre Jerusalém em 586 em virtude do
descumprimento da Aliança por parte do povo hebreu. Estes oráculos foram importantes
para Israel em um período posterior pelos seguintes motivos:
● Significado da desastrosa história de Israel
● O povo deveria encarar com seriedade os julgamentos de Javé e pautar sua vida
pela obediência
● Os oráculos de julgamento são uma introdução à salvação dita por Ezequiel em
33:1 a 34:24
● A esperança futura dos exilados está relacionada à responsabilidade no presente.
Os capítulos 25 a 32 tratam sobre os oráculos contra as nações indicando que Javé é
soberano sobre o povo escolhido, mas também sobre todas as nações ao redor. Estes
oráculos dirigem-se principalmente a Tiro (26:1 - 28:19) e Egito (29 - 32). Mas as nações
de Amon, Moabe, Edom, Filístia também seriam atingidas pelo julgamento de Javé (25).
Nesta seção há uma grande ênfase na morte (26:19-21; 28:8; 31:14-18; 32:18-22) em
contraste com a promessa de vida para Israel (33).
Os capítulos 33 a 48 ressaltam a renovação da Aliança e a restauração do governo
davídico em Israel. A visão sobre o novo templo reafirma a soberania de Javé em Israel
por causa do seu Santo Nome (Ez. 36:22-32). A repetição por 90 vezes da expressão "e
vocês saberão que eu sou o Senhor" indica a certeza do juízo e a garantia que tudo que o
Senhor prometera se cumpriria.
Propósito e conteúdo
O livro de Ezequiel abrange os seguintes temas:
● A soberania de Javé sobre Israel e as nações
● O exílio como punição pela idolatria
● Relação entre o indivíduo e o grupo
● Fidelidade de Javé às suas promessas da Aliança
● A responsabilidade individual e o julgamento divino
● Restauração de Israel sob o governo davídico
.
A estrutura na qual o livro de Ezequiel se apoia reflete as três etapas de seu ministério
com os hebreus deportados para a Babilônia e se constitui em uma defesa do julgamento
que Javé executara em Judá. Os capítulos 1 a 24 formam a base de sua mensagem.
Estes capítulos tratam da queda de Jerusalém, que estava por vir, onde Ezequiel, como
atalaia do Senhor, tinha três funções:
● advertir uma geração de pecadores que não se arrependeram de que o julgamento
estava muito próximo - 2:3-8
● destacar a responsabilidade de cada uma das gerações pelo pecado - 18:20
● chamar ao arrependimento - 18:21-23, 32
Quando Judá foi destruída em 586 a.C. Ezequiel abordou, entre os capítulos 25 a 32, o
julgamento que Javé daria às nações vizinhas por terem ficado contentes com a
capitulação de Jerusalém. Por isso, o Senhor vingaria estas nações com sua ira (Ez. 25:1-
11). Desta forma, Israel veria que Javé era realmente justo e soberano sobre todas as
nações (Ez. 28:24-26).
Nos capítulos 33 a 48, Ezequiel trata sobre a restauração do seu povo sob uma aliança
de paz por meio do pastor davídico (Ez. 34:20-31). Javé, que é fiel à sua palavra e à
promessa da aliança, unificaria Judá e Israel em uma só nação, representada pelo
pedaço único de madeira, que seria governada pelo Messias davídico (Ez. 37:15-28).
Filho do Homem
Apenas os livros de Daniel e Ezequiel trazem esta expressão. Entretanto, em Daniel
temos apenas uma única ocorrência (Dn. 8:7), para ressaltar a origem humana do
mensageiro em comparação com a divindade da mensagem. Em Ezequiel, contudo, esta
expressão é utilizada por cerca de noventa vezes, todas elas dirigindo-se de Javé para
Ezequiel no contexto de uma convocação, e não deve ser comparado com o título que
Jesus atribui a si mesmo no Novo Testamento.
Este título destaca o papel de mero mortal de Ezequiel e seu ministério para com os
exilados na Babilônia e com os que ficaram em Jerusalém. Seu estilo de vida exótico
foram autorizados por Javé como uma espécie de tratamento de choque para um povo de
coração e entendimento endurecidos pelo pecado. Seu comportamento não convencional
serviria para denunciar que um profeta esteve no meio deste povo.
As visões da carruagem cósmica
As visões de Ezequiel ressaltaram a soberania de Javé sobre o mundo e destacaram o
conhecimento que o profeta tinha deste papel cósmico que o Senhor desempenhava. A
escatologia presente nestas visões indicavam para o povo que as promessas de Deus se
cumpririam, pois os ossos secos tornariam à vida.
O livro de Ezequiel inicia-se com uma dessas impressionantes visões, na qual Deus
chega numa tempestade de fogo, sentado num trono sustentado por criaturas celestiais.
Ao lado de cada um destes seres celestiais havia uma espécie de mecanismo feito por
engrenagens que que moviam o trono em todas as direções. Esta visão mesclava
elementos israelitas e algumas ideias do Antigo Oriente, agora conhecidas dos cativos.
Este aparelho celestial, uma espécie de carruagem cósmica, é citada novamente nos
capítulos 8 a 11, que tratam sobre a destruição de Jerusalém. O dispositivo pára no átrio
do templo (10:3) e o fogo aceso na base (1:13) é usado para incendiar a cidade (10:2). Os
seres celestiais são chamados de querubins (10:1-3) para reforçar a ideia dos querubins
imóveis da arca da aliança que ficava no Templo (9:3). O Senhor sobe no trono móvel e
abandona Jerusalém para sua destruição (10:18-19; 11:22-23).
Uma explicação detalhada sobre esta visão desafia nossa lógica, contudo, podemos
afirmar que o objetivo primordial era mostrar que Javé estava no controle absoluto do
universo, pois seus olhos estavam voltados em todas as direções. A característica motora
de seu trono simbolizava sua presença em todos os lugares. Portanto, o povo cativo
poderia ter certeza de que o Senhor estava com eles na Babilônia.
A responsabilidade individual
Ezequiel apela para o conceito da responsabilidade individual (Cap. 18), pois a geração
do exílio culpou seus ancestrais pela calamidade que se abateu sobre Judá,
consequência do julgamento de Javé. Ao reagir desta maneira, o povo hebreu concluiu
que o julgamento do Senhor era injusto.
Na verdade esta era uma interpretação incorreta de Ex. 20:5 e Ex. 34:7, que, embora trate
sobre o castigo do pecado da terceira e quarta gerações, foi mal aplicado pela
justificação de seu próprio pecado baseado no pecado das gerações anteriores. Ezequiel
corrigiu esta distorção interpretativa lembrando os hebreus de que cada geração, e
individuo, é também responsável pelo próprio pecado (Dt. 24:16).
Ao abordar a responsabilidade individual Ezequiel rompeu com a teologia daquele tempo,
sem contudo negar a solidariedade comunitária hebraica. Afinal alguns Salmos, tal qual o
51, de Davi, afirma a individualidade da fé. Portanto Ezequiel estava apenas
reequilibrando os conceitos da responsabilidade coletiva e individual.
Literatura apocalíptica
Ezequiel contribuiu muito para o desenvolvimento do estilo literário apocalíptico,
constituindo uma nova etapa no processo profético. Com suas visões (caps 1-3 e 8-11),
símbolos e êxtases arrebatadores (8:1-4; 40:1-4) apontando para uma redenção
escatológica mediante o julgamento das nações por Javé (caps. 25-32), Ezequiel esteve
na vanguarda do cenário literário apocalíptico que ganharia destaque no pós-exílio.
Ezequiel também serve como ligação entre o mini apocalipse de Isaías no pré-exílio
(caps. 24-27) e a apocalíptica de Daniel no exílio.

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