terça-feira, 30 de maio de 2017

Isaías 11.1-9 Estudando para aprender
1. Introdução
Quero iniciar fazendo uma apreciação subjetiva e dizer que o texto em foco tem, a meu ver, uma construção literária bonita. As imagens são riquíssimas: um toco, um broto e uma raiz falam por si. E o que dizer de uma vara que concretiza o sentido das palavras que saem da boca? Ou do sopro de lábios que mata perversos? E o que dizer da imagem do cinto bem afivelado, comparado à justiça? Certamente é bem diferente da comparação da justiça com pura conversa. Lobos e ovelhas, leopardos e cabritinhos, bezerros e leões, vacas e ursas, filhotes de vacas e ursas juntos, leões e bois, criancinhas e cobras, crianças guiando, filhotes pastando, criança enfiando a mão em toca, águas enchendo o mar. São muitas tentativas de encontrar um recurso para mostrar um futuro não perceptível a “olho nu”, isto é, a partir do que se costuma enxergar no dia a dia. Num primeiro instante, aparecem imagens isoladas. Depois vêm as imagens relacionadas entre si, que, pelo que se costuma experimentar, não combinam: leopardos e cabritinhos? Bezerros e leões?... A “olho nu”, sem chance!
2. Exegese e meditação
Se o jeito de dizer as coisas, aliás, as mesmas coisas, aqui no capítulo 11 (v. 1 a 9) assemelha-se a 9.1-6, o tempo do verbo aqui muda. No capítulo 9, o tempo é presente. Agora é futuro. Agora é promessa. Lá em 9.2: “O povo que andava nas trevas viu uma luz”. Além disso, lá dá-se “nome aos bois”. São citadas as tribos de Zebulom e Naftali e a região entre o Mediterrâneo e a Galileia. Aqui, no capítulo 1, não se é tão específico. Aqui o “rodo passa geral”. Isaías 11.1-9 não trata de um caso específico, mas aplica uma simbologia geral. Ela serve para casos de diversas épocas. Então nossa experiência nos dias de hoje ajuda a suspeitar do seguinte: quando a gente acabou de passar por um caso, a gente cita esse caso quando fala. Quando, porém, a gente já colecionou uma série de casos, então a gente generaliza. Por exemplo, se você visitar alguém que acabou de sofrer uma perda significativa, é provável que o centro da conversa seja a referida perda. Se, porém, você visitar fora do contexto de uma perda significativa, o assunto também poderá girar ao redor de perda, mas o enfoque será mais geral. É o que acontece em nosso texto. Por isso é possível ver nele uma experiência acumulada. Em outras palavras, se ele acumula a vivência de mais casos, ele precisou de mais tempo para acumular essa experiência. Trata-se, pois, de um texto mais tardio na história do povo de Deus. Resumindo, Isaías 11.1-9 condensa um período em que as experiências sucederam-se e ensinaram a mesma lição. Qual é essa lição? Vamos resumi-la assim: está difícil perceber continuidade no desenvolvimento da relação de Deus com seu povo. Está questionada a ideia de que a história é feita de uma linha ascendente rumo à felicidade geral. A figura usada no texto para fazer esse questionamento é o toco que brota. O fenomenal é isto: há uma interrupção. Mas que interrupção é essa? É uma interrupção que não representa o fim. É uma forma dialética de garantir o que está em 2 Samuel 7.16: “Você sempre terá descendentes, e eu farei com que o seu reino dure para sempre. E a sua descendência real nunca terminará”.
Proponho uma divisão do texto em cinco partes:
1 – “E sairá um rompante do cepo de Jessé; um ramo desabrochará de suas raízes. Sobre ele repousará o espírito de Javé: espírito de sabedoria e entendimento, espírito de aconselhamento e empoderamento, espírito de reconhecimento e temor de Deus” (v. 1-2): Esse trecho compõe uma espécie de introdução na qual é apresentado o “x” da questão: o cepo (tronco, caule, ...) e seu conteúdo, isto é, o cepo com uma dinâmica, que é o broto, a ramagem. É importante notar que também aí tem uma simbologia riquíssima, pois algo em si estático ganha uma dinâmica num fenômeno que inclui um rompante. Algumas traduções falam em “rebento”, o que pode criar associação com “arrebentar”, isto é, estourar. Em seguida, vem a tradução da figura para um sentido teológico, que é a qualificação do sujeito da promessa pelo Espírito de Javé que sobre ele atua: sabedoria e entendimento, aconselhamento e empoderamento, reconhecimento e temor de Deus.
De minha parte, ainda estou muito acostumado com a linguagem da Bíblia traduzida por Almeida: “O Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor”. Considero essa forma de dizê-lo melhor do que a versão da Bíblia na Linguagem de Hoje, que, a meu ver, tentando formar frases mais arredondadas, camufl a a tipologia do Espírito: “sabedoria, conhecimento, capacidade e poder. Ele temerá o Senhor, conhecerá a sua vontade e terá prazer em obedecer-lhe”. Proponho permanecer com o tripé: 1) sabedoria e entendimento; 2) aconselhamento e empoderamento; 3) reconhecimento e temor de Deus.
Parece-me que a palavra empoderamento (ainda não devidamente incorporada pelos dicionários) alcançou nosso discurso teológico por meio da reflexão sobre diaconia em âmbito global. A concepção de diaconia em contexto precisa de uma palavra para traduzir na área da educação aquilo que, na área da assistência, é chamado de transferência de renda. Ao lado da transformação e da reconciliação, o empoderamento forma o tripé da ação diaconal e refere-se à transferência de poder a sujeitos-alvo de processos de inclusão.
2 – “Terá prazer no temor de Javé. Não julgará segundo a aparência. Não dará a sentença pelo ouvir dizer. Julgará com justiça os enfraquecidos e pronunciará sentença, concedendo direito aos pobres da terra” (v. 3-4a): Essa parte nomeia as consequências práticas do empoderamento a partir da atuação do Espírito de Javé: ter prazer em seguir o Senhor; julgar sem se basear em aparências; decidir sem se basear em conversa de terceiros; fazer justiça no julgamento das causas das pessoas que foram enfraquecidas e defender com justiça o direito dos necessitados da terra. No mínimo, vejo neste segundo bloco uma tendência à parcialidade.
3 – “Como se fossem uma vara, suas palavras vão ferir as pessoas violentas e, com o fôlego que sairá de seus lábios, matará as perversas. A justiça será o seu suspensório e a fidelidade o seu cinto” (v. 4b-5): Aqui temos a caracterização de sua ação: palavra e espírito empoderados e governo com base em justiça e honestidade. Essa preparação para a missão pode ser aprovada por todos os movimentos de justiça e não violência, pois não há armas – há o poder das palavras e o espírito, o fôlego de Deus. No lado oposto, aquelas pessoas que defendem a pena de morte para as pessoas violentas e perversas provavelmente vão considerar uma “santa ingenuidade” querer ir para o enfrentamento com palavras e fôlego. A indumentária, porém, não nos deixa dúvida: quem entra nesse embate com palavras e fôlego está seguro duas vezes, pelos ombros e pela cintura, com justiça e fidelidade.
4 – “Então o lobo habitará com o cordeiro. O leopardo deitará ao lado do bode. Um menino vai guiar o bezerro, o leãozinho e o novilho gordo. A vaca e a ursa pastarão juntas, de forma que seus filhotes deitarão um perto do outro; e o leão comerá palha assim como faz o boi. A criança de peito brincará sobre a toca da cobra venenosa e a criança desmamada meterá a mão na cova da serpente” (v. 6-8): O trecho apresenta-nos figuras utópicas que dão uma ideia da profundidade das mudanças anunciadas. O conteúdo da promessa já foi apresentado nos versículos anteriores. Aqui as imagens são como um reforço. As imagens acentuam o que precisa ser destacado: a promessa é para quem crê; e crer inclui a aposta no improvável.
5 – “Não se praticará o mal, e ninguém promoverá destruições em todo o meu santo monte, pois o reconhecimento de Javé será pleno em toda a terra” (v. 9): Este último trecho conclusivo descreve um cenário de paz. Não se trata de qualquer paz, mas daquela que vem em consequência da prática de justiça e do reconhecimento de Deus, isto é, do ser humano colocar-se no seu devido lugar.
É possível fazer uma interpretação diferente do ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Via de regra, ele é usado para falar em sentido positivo do fenômeno da persistência como algo que faz vencer nos processos difíceis. Podemos, no entanto, usá-lo também para dizer que, de tanto ver a mesma coisa, começa-se a acreditar que é assim mesmo. A mentira muito repetida torna- -se verdade. Provavelmente, a mentira estava se tornando verdade no contexto de atuação do profeta. Tanta experiência de derrota e destruição fazia crer que Deus tinha mesmo abandonado seu povo. Digamos que o profeta ouvia coisas assim: “Se tu achas que não é assim, mostra-me pelo menos um sinal de supremacia de nosso povo nos últimos tempos”.
Diante disso, ele não se pôs a recolher migalhas de pequenas vitórias aqui e acolá, como seria de se esperar de alguém que quisesse provar a atuação de Deus:
“É, mas também tem coisa boa acontecendo...”. “Não esqueça que Deus também tem te abençoado e tu nem te dás conta disso...”. “Quem sabe Deus está te aplicando um corretivo...”. Frases assim, que nos são conhecidas e têm claramente a intenção de convencer em contexto desfavorável, não estavam na linha de argumentação do profeta. A gente vai procurando uma justificativa plausível. O profeta, porém, não faz isso. Ele não procura resquícios de imagens que possam provar que Deus está, sim, fazendo coisas boas, “só que tu não enxergas”. Ao contrário disso, o profeta recorre a imagens de cenas totalmente improváveis, como se estivesse dizendo: “Olha, meu filho, se tua forma de pensar não inclui espaço para o impossível, para o desconhecido e para a novidade, não iremos adiante”. Não é também isso que nos diz o Novo Testamento? “Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem” (Hb 11.1).
3. Imagens para a prédica
Hoje precisamos do dom do Espírito, que, segundo o profeta Isaías, pousará sobre o rebento do cepo de Jessé. Qual é esse dom?
3.1 – Sabedoria e entendimento
Tem gente que sabe muitas coisas e não consegue lidar bem com elas. Tem o dom de fazer e criar, mas não o de lidar com sua capacidade de fazer e criar. Algumas pessoas, por exemplo, são artistas, e esse dom não as ajuda na construção de uma vida estável. Por isso o dom do Espírito inclui sabedoria e entendimento, entendimento e sabedoria. O sentido completo desse dom espiritual é tê-lo e saber lidar com ele.
3.2 – Aconselhamento e empoderamento
O dom do Espírito que pousará sobre o rebento de Jessé não só inclui o dom espiritual que ajuda a pessoa a organizar seu próprio mundo interior e a lidar com o que sabe. Ele também tem essa segunda dimensão do aconselhamento e empoderamento. Essa dimensão está dirigida à relação com a outra pessoa. Jesus sempre empoderava as pessoas pobres e sofridas que ajudava. Dava o conselho de tal forma que o poder da outra pessoa aumentava. “A tua fé te salvou”, dizia ele. Aquilo que a tradução de Almeida chama de “conselho e fortaleza” é isto: a capacidade que um testemunho tem de servir de conselho e a capacidade que ele tem de transferir poder ao público-alvo de uma ação diaconal.
3.3 – Reconhecimento e temor de Deus
A terceira dimensão do dom do Espírito, apontada por Isaías 11.1-2, não é nem só para quem recebe e nem só para as pessoas que se relacionam com quem o recebe. A terceira dimensão aponta a relação da pessoa que recebeu o dom com Deus. Assim se completam os três níveis de relacionamento que vêm do dom do Espírito: relacionar suas capacidades consigo mesmo (com suas emoções, com seu mundo interior), relacionar sua capacidade com o aconselhamento e empoderamento de outras pessoas (as beneficiárias, o público-alvo) e, em terceiro lugar, reconhecer Deus e andar no seu temor. Nessa terceira relação, não se trata de ter medo do castigo de Deus. Andar no “temor de Deus” é andar sabendo que Deus está vendo o que é feito. Quem crê nunca está só. A “vantagem” de quem tem fé sobre quem não tem é que o primeiro está de mãos dadas com Deus e o segundo não o vê. Diz-se que a ética ou falta dela prova-se no que a pessoa faz quando ninguém está vendo. Isso é conhecimento e temor de Deus. Quem crê não corre, pois, o risco da falta de ética.
4. Subsídios litúrgicos
O hino “Da cepa brotou a rama”, de Reginaldo Veloso, que consta no nº 310 do hinário Hinos do Povo de Deus da IECLB, não pode, evidentemente, faltar nesta celebração. O texto do Evangelho de Lucas 2.1-7 inclui o relato da viagem de José e Maria a Belém, o que trata de colocar Jesus na linhagem de Davi, “abotoando” a profecia de Isaías ao evangelho. O texto do evangelho tem “plasticidade”. É de fácil dramatização, o que pode ser aproveitado como recurso litúrgico. O narrador da cena pode ser o apóstolo Paulo de Romanos 1.1-7. A palavra “Roma” pode ser substituída pelo nome da cidade ou localidade onde está ocorrendo a celebração. O espaço litúrgico pode receber, excepcionalmente, mais uma referência. Essa é um centro de cenário que representa Belém. Pode ser representado por um caule brotado colocado perto do púlpito. É para lá que José e Maria se dirigem. E é lá que está o narrador, que tem como recurso as partes de um banquinho (mocho) de três pernas. À medida que a pregação vai descrevendo o dom do Espírito, conforme Isaías 11.1-2 (vide Imagens para a Prédica acima), o banco vai sendo montado. No fi nal, Maria senta no banco.


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A Pena Capital e a Lei de Deus - Crimes e Punições na Palavra de Deus Escrito por O Tempora, O Mores. Postado em Artigos Índice de Artigos Crimes e Punições na Palavra de Deus Podemos aprender bastante com os princípios que norteavam o tratamento que a Bíblia dá aos crimes e punições. Estamos tão enraizados em nossa cultura, em como ela trata a questão da quebra da lei, que talvez até nos surpreendamos com o encaminhamento dado pela Palavra de Deus à manutenção da lei e da ordem na sociedade civil de Israel. Vamos, portanto, dar uma rápida olhada em alguns princípios que encontramos, quando estudamos esse assunto nas Escrituras: 1. A primeira coisa que nos chama a atenção, é que na Bíblia não existe a provisão para cadeias. Isso mesmo! Elas nem existiam como instrumento de punição, nem como meio de reabilitação. Isso realmente nos intriga, pois estamos tão acostumados com essa instituição que não podemos imaginar uma sociedade sem cadeias. Quando um crime é cometido, a punição que pensamos de imediato é a cadeia. "Merece cadeia!; devia estar na cadeia"! Dizemos com tanta freqüência. Mas na sociedade de Israel, no Antigo Testamento, a cadeia era apenas um local onde o criminoso era colocado até que se efetivasse o julgamento devido. Em Números 15.34 lemos: "...e o puseram em guarda; porquanto não estava declarado o que se lhe devia fazer...". Logicamente encontramos na Bíblia o registro da existência de cadeias. Jeremias foi encarcerado e Paulo, igualmente, diversas vezes, dentro do sistema romano de punições. Mas estes encarceramentos eram estranhos às determinações de Deus. 2. Desta forma, por mais familiarizados que estejamos com esse conceito, não encontramos, na Palavra de Deus, o encarceramento como remédio, ou a perspectiva de reabilitação através de longas penas na prisão. Muito menos, encontramos a idéia de "proteção da sociedade" através da segregação do indivíduo que nela não se integra, ou que contra ela age. Ou seja, não encontramos, nas prescrições dadas ao povo de Deus, cadeias para punir, remediar, reabilitar ou proteger. 3. O princípio que encontramos na Bíblia é o da restituição. Em Levítico 24.21 lemos, "...quem pois matar um animal restituí-lo-á, mas quem matar um homem assim lhe fará". A restituição ou retribuição, era sempre proporcional ao crime cometido. Como a restituição da vida era impossível, ao criminoso, no seu caso a punição era a perda da própria vida. 4. Isso significa que aquela sociedade não tinha meios para lidar com o crime? Ou aplicava a pena de morte em todos os casos de quebra da lei? Não. Ela possuía determinações bem precisas e eficazes contra a banalização e proliferação da criminalidade. Ela responde à quebra da lei com medidas rápidas e que representavam prejuízo econômico para o infrator. Para os casos de furto, a Lei Civil Bíblica prescrevia a restituição múltipla. Vejamos em Êxodo 22.4 "...se o furto for achado vivo na sua mão, seja boi, seja jumento, ou ovelha, pagará o dobro". 5. Nos casos de furto de propriedade que representa o ganha pão ou meio de subsistência do prejudicado, a Bíblia prescrevia a restituição de quatro ou cinco vezes o que foi subtraído. Assim lemos em Êxodo 22.1 "...se alguém furtar boi ou ovelha e o degolar ou vender, por um boi pagará cinco bois, e pela ovelha quatro ovelhas". 6. As determinações das Escrituras procuravam proteger a vítima e colocar temor no criminoso, tirando qualquer idéia de proteção que viesse tornar a vítima em acusado também. O que queremos dizer é que, contrariamente aos nossos dias, quando as vítimas ou agentes da lei possuem as mãos amarradas pela excessiva proteção ao criminoso, o direito de cada um de defesa de sua propriedade era algo abrigado, concedido e salvaguardado, na legislação mosaica. Vemos isso em Êxodo 22.2: "...se o ladrão for achado a minar e for ferido, e morrer, o que o feriu não será culpado do sangue". 7. Aqueles que roubavam alimentos para satisfazer a fome, deviam ser tratados com clemência, mas mesmo assim, persistia a obrigação de restituir sete vezes o alimento que furtou do legítimo dono, uma vez que a própria constituição da sociedade já possuía a provisão para atendimento aos carentes, tornando desnecessário o furto, como vemos em Deuteronômio 24.19 a 21. Desta forma lemos em Pv. 6.30, 31: "...não se injuria o ladrão quando furta para saciar sua alma, tendo fome; mas encontrado, pagará sete vezes tanto: dará toda a fazenda da sua casa..". 8. Vemos então, em apenas um rápido exame das diretrizes bíblicas e um confronto destas com as opiniões que agora surgem, a sabedoria ali encontrada. Já há milênios antes de Cristo a Bíblia determinava punições pecuniárias, que o homem, a elas hoje chega, baseado na constatação empírica de que outras medidas não funcionam. Com efeito os encarceramentos prolongados, hoje aplicados, não produzem reabilitações, não são bem sucedidos em conservar o criminoso fora de ação e as prisões constituem-se, na realidade, em verdadeiras fábricas de criminosos piores e mais violentos. 9. O sistema bíblico de punição pecuniária é destinado a tornar o crime uma atividade não lucrativa. No que diz respeito àqueles criminosos que se recusavam a obedecer as autoridades constituídas, a sentença é a pena de morte. Lemos isto em Deuteronômio 17.12: "...o homem pois que se houver soberbamente, não dando ouvidos ao sacerdote, que está ali para servir ao Senhor teu Deus, nem ao juiz, o tal homem morrerá e tirarás o mal de Israel". [10] 10. Isto eqüivale a dizer que a condição de reabilitação na sociedade, para o criminoso primário, era total e absoluta. Indo na direção contrária à nossa sociedade, que coloca o criminoso iniciante enjaulado, em condições subumanas, como criminosos experientes " que se encarregam de formá-lo na escola do crime, o criminoso primário em Israel, pagando a indenização devida, estava pronto a se reintegrar na sociedade atingida pelos seus desmandos. Essa sociedade não deveria discrimina-lo de nenhuma forma, pois restituição havia sido efetivada. 11. Por outro lado, havia aqueles que se recusavam a obedecer, reincidindo no caminho do crime. A Bíblia reconhece a necessidade de proteger a sociedade desses elementos, mas não através do encarceramento " uma forma pseudo-humanitária, somente onerosa, imperfeita e impossível de produzir resultados. O sistema encontrado na Bíblia apresenta a efetivação desta proteção de uma forma radical, mas destinada a produzir frutos permanentes e a gerar a paz e a tranqüilidade em uma sociedade. Além disto, poderíamos falar no efeito didático, que a aplicação coerente e sistemática desta pena teria nos reincidentes em potencial. 12. Que diferença encontramos entre a forma de tratar o crime na sociedade de Israel e na filosofia e sistema empregados nos dias atuais! Em nossos dias, o crime prospera porque é lucrativo e porque corre impune, sendo isto também uma conseqüência da falta de adequação das penas impostas aos crimes cometidos. O sistema penal do Antigo Testamento previa não somente a adequação da penalidade aos crimes cometidos, mas a sua rápida aplicação. Lentidão da justiça é reconhecida até os dias de hoje como uma manifestação de injustiça. Nesse sentido, temos o registo apropriado da Palavra de Deus, em Eclesiastes 8.11:"Porquanto não se executa logo o juízo sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para praticar o mal". 13. Obviamente não há a possibilidade da aplicação direta e total das Leis Civis prescritas por Deus ao estado teocrático de Israel, na sociedade atual. Nem podemos advocar a aplicação da pena de morte para todas as situações temporais prescritas na Lei Mosaica (como, por exemplo, pela quebra do sábado), pois destinavam-se a uma nação específica, dentro de específicas circunstâncias, e com propósitos definidos, da parte de Deus. Muitos dos princípios encontrados, naquela sociedade agrária, entretanto, são eternos e válidos até os dias de hoje e merecedores do nosso exame e estudo. A rapidez das sentenças; as penas pecuniárias e o peso econômico sofrido pelos infratores, em benefício das vítimas; a visão clara de quem é vítima e de quem é infrator, sem cometer a inversão de valores de considerar os criminosos "vítimas do sistema"; o apreço pela vida humana, acima de qualquer outra perda; o cuidado todo especial pela preservação de uma sociedade na qual liberdade também significasse ausência de violências e de ameaças trazidas por indivíduos incorrigíveis; o chamado constante ao bom senso e à preservação da lei e da ordem, não apenas com meras palavras, mas com duras penas contra os malfeitores; a ênfase, respaldada igualmente em penas severas, no respeito aos anciãos e às autoridades; são alguns desses princípios que deveriam estar presentes em qualquer sociedade. Juristas cristãos muito poderiam contribuir para um aprofundamento deste tema, penetrando a fundo na regulamentação da sociedade veto-testamentária e procurando uma adequação desses princípios às nossas condições. A questão de crimes, punições e determinações divinas está alicerçada no tema maior da Lei de Deus. Mas o que realmente significa este termo. O que a Bíblia tem a nos dizer sobre os seus diferentes aspectos? Seria difícil prosseguir em nossa caminhada, se não fizermos uma exploração, neste estágio, do significado da Lei de Deus, e da sua relevância aos nossos dias: