sábado, 27 de julho de 2019

Vivendo a Bíblia

O toque das sete trombetas 8,1-11,19


Na abertura dos selos, quando esperamos que o sétimo seja aberto, o escritor apresenta um interlúdio (capítulo 7) para somente depois dele abrir o último selo. Mas, para nossa surpresa, esse selo não introduz a abertura do livro com a revelação do seu conteúdo e conseqüentemente a vinda de Jesus; pelo contrário, ele traz uma nova série de sete. Agora são sete trombetas que serão tocadas! Elas compõe o conteúdo do sétimo selo. Temos um novo bloco do livro que volta a apresentar o paralelismo progressivo.

Em termos cronológicos, o texto começa novamente a falar do presente (8,3 – os cristãos das igrejas que estavam orando), e do futuro (11,17-18 – julgamento dos mortos e galardão). Além disso, não existe seqüência cronológica entre os selos e as trombetas, visto que em 6,12 fala-se do “sol que se tornou negro”, e em 8,12 há a menção de que “um terço do sol se tornou escuro”. Se no capítulo 6 o sol já estava escuro, como, no capítulo 8, ele teve apenas uma terça parte sem luz? Isso mostra que não há sucessão de tempo entre as duas seções.
À semelhança do bloco anterior, estes capítulos também são divididos em duas partes:
? 8,1-6 : cena de abertura no céu.
? 8,7-11,19 : toque das trombetas.
1. CENA DE ABERTURA NO CÉU – 8,1-6.
A abertura do sétimo selo introduz uma cena celestial (v.1-2). Um anjo queima incenso para oferecer com as orações dos santos (v.3-4). Os sacrifícios no V.T. eram apresentados com incenso (Lv 16,12), e a oração, vista como um sacrifício a Deus passou a ser comparada ao incenso que sobe diante de Deus (Sl 141,2). Esta cena fornece a garantia de que as orações dos fiéis têm chegado a Deus e que Ele as responde. Essa resposta se manifesta quando o anjo pega o fogo do altar e joga sobre a terra (v.5). Isso indica o julgamento de Deus que se dará através do toque das trombetas. Talvez fosse isso que os cristãos pediam em suas orações.
2. O TOQUE DAS TROMBETAS – 8,7-11,19.
Trombetas foram usadas para sublinhar os grandes momentos na história de Israel (foram usadas: para anunciar o combate – Jr 4,5; nas festas – 2Sm 15,10; na cerimônias cultuais – Nm 10,10; nas teofanias – Ex 19,16ss). São elas que anunciarão a vinda de Jesus (Mt 24,31; 1Co15,52; 1Tss 4,16). Somos tentados a identificar as trombetas do Apocalipse com este último sentido. Porém, a análise do texto mostra que essa relação não é correta. Elas não anunciam o fim, mas sim o juízo de Deus que se manifesta na terra e sobre os homens no decorrer da história. Parece que o uso delas é justamente para quebrar essa expectativa iminente, mostrando que ainda não é o fim.
Dentro do paralelismo progressivo, as trombetas apresentam basicamente o mesmo tema dos selos: as catástrofes que vêm sobre a humanidade. Enquanto nos selos esses sofrimentos acontecem de modo generalizado, para cristãos e não-cristãos, nas trombetas eles visam os homens que não crêem (8,13 – os “que moram na terra” são os homens que têm perseguido os cristãos [ver 6,10]; 9,4). Elas mostram que, para estes homens, o sofrimento é especialmente duro. Nele, os cristãos são chamados à perseverança, e os incrédulos recebem uma advertência de Deus para que se arrependam (9,20-21). Por isso a destruição não é total, ela visa apenas a “terça parte” (8,7.8-9.10.11.12; 9,18). Porém os homens não se voltam para o Senhor, e por isso serão destruídos na manifestação de Jesus (11,18b). Isso se dará na sétima trombeta, que marca o fim (11,15-19).
As pragas que vêm por intermédio das trombetas devem ser entendidas como conseqüência e retribuição aos pecados dos homens. Somente nesse sentido é que pode-se entender que a terra e a natureza sofram (8,9.11. Ver Rm 8,20-22). Além disso, o pano-de-fundo das trombetas se encontra nas pragas do Egito (Ex 7-11) que mostram o juízo de Deus sobre um povo que oprimiu os israelitas e não quis ouvir a voz de Deus.
Primeira trombeta (8,7). Representa qualquer tipo de destruição que causa dano à terra (ver a relação com a sétima praga em Ex 9,24-25).
Segunda trombeta (8,8-9). Indica, na linguagem apocalíptica, os danos ocorridos no mar. Os seres aquáticos são atingidos, bem como o comércio marítimo, que era muito importante para Roma, através da destruição das embarcações. Esta catástrofe é mais séria que a primeira, porque atinge, mesmo que indiretamente, os seres humanos (ver a primeira praga em Ex 7,20-21).
Terceira trombeta (8,10-11). Se a terra e o mar já foram atingidos, agora a destruição atinge a água potável. As águas se tornam em “absinto”, uma planta que, por ser muito amarga, passou a ser usada como sinônimo de “veneno”. Nesta trombeta os homens são atingidos diretamente. Muitos deles morrem. Uma depois da outra, os segmentos mais necessários à vida humana na terra são atingidos.
Quarta trombeta (8,12-13). Se o sol tornando-se negro, e as estrelas caindo são sinais da vinda de Jesus (6,12-13), o escurecimento da terça parte do sol, da lua e das estrelas é um sinal antecipatório de que o fim está próximo. É essa a mensagem que a águia traz no versículo 13.
Quinta trombeta (9,1-12). O versículo 13 marcou uma transição entre as quatro primeiras trombetas e as três últimas. As últimas são mais intensas e piores que as anteriores. A citação da “estrela que cai do céu” (v.1) é usada para descrever seres vivos que atuam arrogantemente (Is 14,12) e aqui pode referir-se a Satanás (Lc 10,18; Ap 12,9). O “abismo” é o inferno antes do juízo final (Ap 20,1.3). Os gafanhotos como “escorpiões” (v.3, 10) lembram seres subordinados ao diabo (Lc10,19), portanto, “demônios”. A imagem, portanto, está clara. Enquanto as trombetas anteriores falavam de males físicos, aqui a ameaça é espiritual. É o sofrimento que o diabo e seus demônios impõe aos homens que “não têm o selo de Deus” (v.4).
Sexta trombeta (9,13-21). Esta última trombeta, antes do final, apresenta um último aviso e mais grave: a morte (v.15, 18). De fato, ela nos faz pensar na nossa situação diante de Deus. Mas mesmo diante dela, os homens não se arrependem (v.20-21).
Agora, à semelhança do que aconteceu com os selos, há um interlúdio (capítulo 10-11,14). Ele serve para aumentar a expectativa antes da última trombeta.
Um anjo vem e afirma através de um juramento que não haverá demora para o fim (10,1-7). Ordena-se a João que coma o livro que está com o anjo (v.8-10), sinal e símbolo de vocação profética (ver Ez 2,8-3,3). Comer o livro significa encher-se da revelação profética. Isso acontece porque João tem muito o que profetizar (v.11).
No capítulo 11 João deve medir o santuário e o altar do templo (v.1). Logicamente o templo aqui não é uma realidade física, visto que ele já havia sido destruído no ano 70 d.C. Possivelmente se refere à Igreja, enquanto santuário de Deus (1Co 3,16; 2Co 6,16; Ef 2,21). A medição significa “preservação”. O que não é medido é entregue aos gentios para destruição (v.2). Temos, portanto, a reafirmação daquilo que dissemos anteriormente, que os cristãos são guardados por Deus durante o toque das trombetas.
Essa mesma igreja que é protegida por Deus, é mandada testemunhar através do símbolo dos dois profetas (11,3). Eles são Elias (v.6a) e Moisés (v.6b), que eram tidos como os maiores profetas de Israel. Em termos proféticos, representam muito bem a Igreja. Eles são guardados por Deus (v.5). Devem profetizar 1.260 dias, período esse entendido como compreendendo o tempo entre a primeira e segunda vindas de Jesus (ver 12,4-5.14). A besta, que surgirá no capítulo 13, os mata (v.7-8). Os povos alegram-se com isso (v.10), possivelmente porque eles pregavam contra seus pecados. Mas três dias e meio depois da morte das duas testemunhas elas ressuscitam (v.11), como o Senhor Jesus, e vão para junto do Pai (v.12). Esse é o destino da Igreja. Embora receba forças para suportar os tormentos que se abatem sobre a terra, sua pregação aos homens desperta ira, e ela é perseguida. Isso tem acontecido na história da Igreja e acontecerá até a vinda de Jesus.
Por fim, temos a sétima trombeta (11,15-19). Ela marca a chegada do fim. Jesus julga os mortos, dá galardão aos santos e destrói os ímpios (v.18-19). Aqui Jesus é visto em toda a sua justiça que trará alegria àqueles que sofreram em seu nome e punição para os que o rejeitaram.
CONCLUSÃO
Nas trombetas temos novamente o paralelismo progressivo. Pela segunda vez são apresentadas catástrofes que se manifestam na história da humanidade. O objetivo delas agora é atingir os descrentes a fim de despertar arrependimento e fé neles. A Igreja é enviada ao mundo para testemunhar o evangelho de Jesus (cp. 11). Porém, apesar dos sinais de Deus e da pregação da Igreja, o mundo não crê e mantém-se endurecido em seu pecado. Nesse contexto, a sétima trombeta vem para dar o pagamento que cada um merece.

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