sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A HISTORIA DE JOSE E A VIDA DE JÓ


José e Jó: a estranheza que os une


1.  O livro de Gênesis e o livro de Jó: elementos literários
1.1.  O lugar de José no primeiro livro da Bíblia

A                 História das origens de Israel vem contada, em seus primeiros capítulos, na grande extensão de Gn 12-50. Não se pode achar, com isso, que ela não esteja traçada nos primeiros seis livros da Bíblia. Estes livros revelam que antes da posse de Israel em Canaã, os ancestrais deste povo vieram da longínqua terra da mesopotâmia onde vagueavam como seminômades. A riqueza destas narrações revela a singularidade deste povo e o seu modo de ser que se distingue visivelmente dos povos seus vizinhos no oriente próximo antigo. É bastante forte, no entanto, o viés teológico e mítico nestas primeiras narrativas. É por isso que a chamada proto-história, ou seja, as narrativas contadas nos primeiros onze capítulos do Gênesis, não tratam de fatos isolados que ocorreram numa época remota, mas de textos que - apoiando-se em imagens, símbolos e temas (também) das mitologias vizinhas - interpretam a Deus, o mundo e o ser humano a partir da fé. Estes textos levantam problemas que estão além das ciências naturais.  
Quando se fala nos chamados patriarcas, começa-se a pisar em solo (mais) histórico. Contudo, é preciso acenar para a dificuldade que se tem com a definição de história. Não é história no sentido estrito e tampouco biografia dos patriarcas. Vale dizer que se enfrenta um problema de método, isto é, significa aceitar que se a história é contada através de documentos, não se pode ter segurança histórica nas narrativas patriarcais que não são, certamente, documentos históricos contemporâneos aos acontecimentos que narram. É preciso considerar que as narrativas - enquanto dados históricos - têm valores mínimos.  Assim, 

sem dúvida eram cruciais as questões enfrentadas a partir do 18o século. Não é irrelevante que a revelação bíblica se baseie ou não em fatos históricos. É também fundamental poder haurir dela autêntica teologia e não só alguma mensagem humanística ou algum gozo estético, ainda que purificado. A questão não é tanto saber se o fim atribuído à interpretação é legítimo, e mesmo indispensável, quanto interrogar-se sobre o método a adotar para atingir tal fim. Trata-se de saber como abordar os textos bíblicos para interpretá-los corretamente. Ora, a primeira condição consiste em lê-los conforme as normas que eles próprios dão. É o único modo para evitar manipulações e reduções de qualquer espécie que seja, pois os textos bíblicos definem a relação com a realidade histórica de acordo com as convenções literárias de sua época e geram sua peculiar teologia  seguindo as vias que lhe são próprias (...) Com efeito, quem estabelece uma aproximação com o texto bíblico a partir do ângulo apropriado está em condições de resolver não poucas dificuldades (SIMIAN-YOFRE, 2000, p. 29-30). 


Há, então, como estas primeiras linhas mostraram, uma harmonia bastante considerável entre os costumes dos primeiros povos da Bíblia e seus vizinhos no oriente próximo antigo nesta mesma época. O que se tem em nível de narração, referente aos patriarcas, pode ser encerrado com a famosa história de José que ocupa os últimos catorze capítulos do livro do Gênesis (37-50). O nome Yôsep pode designar uma raiz que significa: que ele (o deus) acrescente. É o penúltimo filho de Jacó e sua mãe se chama Raquel[1]. É desnecessário contar a história de José aqui e este não é o objeto desta leitura. Basta dizer que ele será o responsável pela sobrevivência de sua família no Egito depois de ser vendido pelos irmãos e tornar-se uma espécie de primeiro ministro do Faraó. 

1.2.  O Livro de Jó: uma pérola da Bíblia 


O livro deixa transparecer, em sua estrutura mais ampla, uma organização interessante. Um leitor mais cuidadoso que o toma nas mãos observará que nele estão presentes dois tipos de redação fundamentais: uma em prosa e outra em poesia. Esta indicação não teria tanto valor se apenas olhada por olhar. O que torna mais significativo este olhar (e depois se verá sua implicação no sentido da obra) é, exatamente, onde se situam estas duas redações.
Estrategicamente uma parte de redação em prosa inicia o livro (1,1-2,13) e a outra conclui o mesmo (42,7-17). Isto evidencia o caráter de moldura que esta redação confere ao conjunto da obra. Popularmente muito se ouviu dizer da „paciência de Jó‟. Esta é uma reflexão que deixa transparecer apenas o que se pode ler no texto em prosa. Ali está, aos olhos do leitor, um Jó que sofre e que aceita o sofrimento resignando-se: “Nu saí do ventre de minha Mãe e nu voltarei para lá. YHWH o deu YHWH o tirou, Bendito seja o nome de YHWH”[2].
A                 segunda redação é a que cobre a maior parte da obra. É toda em poesia resguardando-se alguns versículos-ponte (em prosa) nas introduções dos capítulos. Esta poesia se estende de 3,1 a 42,6[3]. Personagens mencionados na primeira parte da narrativa tomam lugar dentro desta poesia dialogando com Jó. A título de curiosidade, muito já se descobriu da impressionante afinidade terminológica que existe entre as duas partes da obra, ou seja, prosa e poesia (TERRIEN, 1994, p. 25). Na verdade, não se sabe bem se se poderia falar em diálogo, categoricamente. O que se observa é uma série de discursos sequenciais que se mostra bem organizada. O Jó desta parte do livro não é mais tão paciente. Ele alterca com Deus e quer saber, d‟Ele, as razões de seus sofrimentos. 
A parte em prosa poderia estar situada em fins do século 6º a.C. e primeira metade do século 5º. A parte em poesia estaria situada, então, em meados e final do século 5º a.C. É o que se pensa comumente (VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1999, p. 138)
O livro de Jó foi escrito (todo) em hebraico. Parece indicar a reflexão de alguém sobre sua época. O modo de ver as coisas e de pensá-las. Desta forma, Jó aparece como uma figura literária que vive na pele uma situação constatada pelo seu autor/redator. Parece que estamos diante de um teólogo que reflete algum tipo de decadência religiosa e cria um personagem que fala por ele. É claro que não se pretende, aqui, esgotar e nem propor um sentido único para a obra. Estas afirmações têm o apoio de outros trabalhos onde se procura configurar, o mais acertadamente possível, um ponto de vista. 

2.  Sobre o unheimlich: o (mais) estranho em Freud

Para as categorias freudianas, Unheimlich é exatamente o antônimo de heimlich. Este último, aquilo que é familiar, próximo, doméstico. Desta maneira aquilo que é mais próximo se torna estranho exatamente por ser tão próximo. É um encontro de contrários que torna difícil a demarcação de fronteiras e por isso mesmo já conduz a um estranhamento inquietante. Algo muito familiar ao ser re-olhado, re-avaliado e re-visitado passar a tomar sobre si a noção de estranheza.
Em uma das acepções do termo, está contida a significação de casa, família ou bem, elemento do qual se está acostumado. É aí que aparece a primeira citação bíblica de Freud: Gn 41,45 que desenvolvo mais à frente. 
Paralela à noção de estranho aparece outra significação que permeia o Antigo Testamento:
a do estrangeiro. Etimologicamente as duas noções são distintas, mas se aproximam tematicamente. Recorto aqui, no entanto, a significação de estranho, como avisado na introdução. Para o futuro, nada impede que a categoria do estrangeiro seja recolocada e reavaliada como caminho importante para uma compreensão do que aqui se desenvolveu em nível de estranho[4]
Antes de entrar propriamente no que se refere ao tema proposto, quero dedicar algumas poucas palavras a essa curiosa apropriação que Freud faz de uma tradução alemã que, como se vê, não é tão literal assim. Cumpre recordar que a proposta de Lutero era a de possibilitar uma versão da Bíblia na sua língua vernácula que pudesse ser acessível a todas as pessoas. Desta forma, é indubitável que estejamos diante de uma afirmação histórica e identitária do próprio Freud quando usa essa tradução na sua língua e que confere toda uma carga de importância e nacionalidade a seu uso. É claro que alguns contra argumentos poderão surgir destas minhas afirmações. Mesmo assim, o que salta aos olhos é o fato de que os critérios tradutórios que hoje usamos procuram buscar um olhar que considere o texto original (originário, no caso da Bíblia já que perdemos os autógrafos) no que este texto tem de mais genuíno e próximo das mais antigas cópias. 
Por detrás da interpretação luterana (e posteriormente freudiana) pode ser vista uma menção ao fato de que José, agora, é conferido em autoridade sobre o Egito. Com seu duplo nome egípcio fica evidenciado (pela menção de Freud a esse exato versículo), o estranho que se torna familiar. Não há nenhuma palavra no hebraico que apóie essa leitura de Freud a não ser a tradução de Lutero[5]. No entanto, é importante admitir que, à luz de toda a história de José, faz bastante sentido sua apropriação por Freud para ilustrar bem os seus conceitos. Terminologicamente posso não encontrar tanto apoio, mas tematicamente estou diante de uma inteligente observação no que concerne ao fato de que um estranho (José) se torna familiar em terra estrangeira e assim se torna estranho aos seus próprios familiares (seu pai Jacó e seus irmãos). 
Algumas das outras ocorrências citadas por Freud aparecem, segundo a Bíblia de Lutero: 2Sm 23,23; 1Cr 12,25 (o mesmo texto em paralelos que indica a guarda pessoal, íntima [heimlichen] do Rei Davi). Essa primeira acepção da palavra retoma o referente ao ambiente familiar. As considerações poderiam se estender aqui, mas por razões de rigor metodológico, distancio-me (propositadamente) das discussões hermenêuticas sobre o uso de tal texto e não outro, embora eu continue no exercício etimológico ao qual me propus.  
Minha leitura vai se distanciar da leitura de Freud somente no aspecto comparativo de palavras como indiquei acima. Contudo, passo a examinar outros verbos que, em hebraico, trazem a noção de estranhamento nos dois recortes que são objeto deste trabalho. A leitura se detem sobre dois verbos hebraicos que trazem em si o sentido de estranheza: a saber, nākar e zûr[6].   

3.  Os estranhos José e Jó: outros verbos que os une.  

3.1. As estranhezas em José

Quero, agora, considerar a etimologia do termo que aparece ao redor da história de José e de fragmentos do Livro de Jó. Quando Freud cita Gn 41,45, o faz da seguinte forma: “der heimlichen Rat” (FREUD, 1972, p.2). Um primeiro olhar sobre essa forma textual me fez perceber que ela não se coadunava com o texto original hebraico[7]. Parece que Freud está usando a tradução de Lutero já que é a única que traz essa versão o que o próprio Freud indica: “O Faraó nomeou (a José) heimlicher Rath (conselheiro secreto)” (FREUD, 1972, p.4). Contudo, o texto hebraico desconhece essa forma. A tradução em português, conforme o hebraico traz: “E o Faraó impôs a José o nome de Safanet-Fanec, e lhe deu como mulher Asenet, filha de Putifar, sacerdode de On. E José saiu a percorrer o Egito”9
 Apesar de tudo isso, quero comentar somente o capítulo 42 de Gênesis porque é ele que guarda as mais interessantes alusões ao tema proposto no que se refere a José do Egito. O principal tema de meu diálogo com Freud reside na afirmação feita por ele de que somente no sentido demoníaco o hebraico lida com o termo estranho. O uso do verbo nākar, em 42,7a é bastante oportuno para o que ora me proponho. O narrador de Gênesis trabalha com o verbo nākar e curiosamente o faz no momento de maior emoção na narrativa.  
9 
Assim está construído o texto, segundo a Bíblia de Jerusalém: “Logo que José viu seus irmãos ele os reconheceu (wayyakkirem), mas fingiu ser estrangeiro (wayyitnakker) para eles e lhes falou duramente” (Gn 42,7a). O verbo aparece duas vezes e é traduzido duas vezes de forma diferente: reconheceu e estrangeiro. Talvez pudéssemos propor a seguinte tradução: “E José quando viu seus irmãos os conheceu, mas fez como se não os conhecesse”. Assim se mostra o paradoxo que Freud havia sugerido. Reconhecer e ser estrangeiro são linhas do mesmo tecido, porém com cores diferentes. Reveladora é a deliberada informação do narrador ao dizer que José fez como se, ou fingiu. É de fato um de casa, mas aos mais de casa se torna (deliberadamente) estranho. Como se não bastasse, o versículo seguinte reforça o que ora afirmei: “Assim José reconheceu (wayyakker) seus irmãos, mas eles não o reconheceram (hikkiruhu)”, em 42,8. Quatro ocorrências do verbo em dois versículos muito próximos. Isso deixa claro que o narrador está convidando o leitor a entrar nesse universo de um curioso jogo de estranheza.  
José do Egito é o estranho dentro da casa do Faraó. Ele se mostra (deliberadamente) estranho a seus irmãos (Gn 42,7) neste texto emblemático. À medida em que ele se torna próximo do Faraó mais se distancia da própria família. Repare que seu nome é mudado para nome egípcio.
É o sinal mais interessante de sua “entrada” na casa do Faraó. 

3.2. As estranhezas em Jó


Na primeira acepção de nākar está presente a noção de reconhecer, estar familiarizado, conhecer, respeitar, discernir. Contudo, os usos derivados dessa raiz já trazem novas chaves de leitura para estas observações. Nēkar pode ser traduzido por estrangeiro podendo abarcar, também, a idéia referente a deuses e altares estranhos. Com respeito a nokrî, outro derivado, chegamos à compreensão de estranho. Com cerca de 40 ocorrências no texto hebraico do Antigo Testamento, designa cidades não israelitas, terras estranhas, mulheres estranhas (nokrîyâ: nesse caso particular é uma forma de dizer prostituta). 
Imagino que aqui tocamos o miolo das reflexões para o caso específico de Jó. Na primeira parte (prosaica) do livro o leitor se depara com uma curiosa situação: Deus se adianta a Satã para perguntar a ele se observou seu servo Jó[8]. Daí para frente se abre toda uma trama que apresenta Jó como que violentado e agredido onde o leitor tem que conviver com o incrível desconforto de não saber, de fato, quem é o maior inimigo de Jó: Deus ou Satã. Todo o resto da obra dependerá dessa curiosa intervenção de Satã (ou de Deus?) na vida de Jó. Ele se tornará, então, um estranho para sua casa (família) e para si mesmo. Outros recortes, no livro de Jó, mostrariam onde ele destaca os seus como estranhos a ele e, por fim, o próprio Deus. Passo a considerá-los. 
Jó é um alienígena em sua própria residência. Todos se afastaram dele por causa de sua desgraça. Uma importante ocorrência está presente em Jó 19,15. Ali se lê: “Minhas servas consideram-me intruso, a seu ver sou estranho (nokrîyâ)”. O interior da casa (aqui indicado pelas servas) não o reconhece (note-se uma das acepções do verbo nākar como dito acima). 
Neste capítulo dezenove de Jó ocorre, também, por duas vezes, o verbo zûr. A primeira no v. 13 que, numa tradução mais literal, poderia ser assim compreendida: “Faz que de mim se afastem meus irmãos e que meus conhecidos, como estranhos (zārû), se apartem de mim[9]. A segunda, também numa tradução mais literal, no v.17a: “Meu hálito é estranho (zārāh) para minha mulher”. É importante assinalar, nesta altura, que a mulher de Jó aparece na cena (em prosa). Para alguns autores, o seu aparecimento indicaria um objetivo funcional tendo Eva como modelo. Interessante como o motivo inicial da Bíblia (relatos da criação e queda) re-aparece na concepção de Satã como aquele que instiga o próprio Deus a por Jó à prova. No entanto, a palavra mais dura não parece ser a de Satã, mas a da própria mulher de Jó que sugere: “amaldiçoa a Deus e morre de uma vez” [10]
Um elemento a mais aparece nesta reflexão sobre Jó. O curioso é que ele está escondido sob o véu de algo bastante explícito desde o começo das considerações que venho tecendo. Tratase da etimologia do próprio nome Jó. Samuel Terrien afirma: “o nome Jó (’Jîôb) é derivado aparentemente do verbo ’ayab, „ser hostil‟, „tratar como inimigo‟, e pode significar: objeto de perseguição e inimizade” (TERRIEN, 1994, p. 62). Esta é uma alusão que acredito iluminar bastante o que venho procurando refletir. Implica na pergunta: por quem Jó está sendo hostilizado?
À luz do que afirmei acima, é bem provável que se possa aventurar uma consideração no sentido de que Deus ou Satã hostilizam Jó. Se estas considerações estiverem certas, abrem novas luzes sobre o fato de que o mais genuíno estranhamento de Jó seja o de que ele agora é hostilizado por aquele que é mais próximo dele: Deus. Repare-se que Satã sai de cena e em momento algum do livro Jó parece querer altercar com ele, mas com Deus. É como se trouxesse em seu nome um estigma da sua infelicidade. Neste prisma, o livro todo é um brilhante exemplo de um estranho para si mesmo, para sua casa e para o que tem de mais caro: a relação com a divindade. 
Jó, enquanto personagem, questiona o dogma sapiencial vigente em sua época: a chamada teologia da retribuição segundo a qual quem age com justiça é recompensado e quem age injustamente é acometido pela desgraça. O que a obra reflete é o sofrimento de um homem que se reconhece inocente. No entanto, seus três “amigos”, Elifaz, Bildad e Zofar (e posteriormente Elihú) são defensores desta ortodoxia, isto é, eles professam o ensinamento da tradição e não admitem que Jó não concorde com os fatos. É essa a mola mestra da grande sequência de discursos[11]
Jó permanece em sua solidão e espera que YHWH lhe responda. É curioso, no entanto, que Ele (YHWH) se esquiva desta resposta. O leitor percebe que, no livro, Deus não reponde a Jó da forma como ele queria e, indiretamente, da forma com a qual o leitor (também) queria. O problema do sofrimento continua em aberto. O livro não tem a fórmula para resolvê-lo.  

A modo de conclusão 

Fica latente e necessária, neste momento, uma volta ao começo das considerações que fiz. O exercício pretendeu mostrar como o conceito de estranho em Freud propicia um olhar bastante alargado sobre os dois corpus literários bíblicos que tomei como exemplo. 
O que Freud sugere como leitura em nível de estranhamento pôde ser demonstrado na leitura destas linhas do texto bíblico. Alguns elementos comuns corroboram estas afirmações: 1) o fato de serem duas personagens com características bem fortes na narrativa; 2) o ambiente do lar (bastante recorrente nas definições de Freud) está presente nos dois relatos; 3) considerando ambas as narrativas no seu todo revelam diversos níveis de estranhamento desde o círculo familiar até o religioso; 4) são duas obras clássicas para a tradição judaica que é, matricialmente diaspórica; 5) os dois relatos revelam personagens que acabam se tornando estrangeiros para os seus. 
Além destes pontos muitos outros podem ser anotados. No entanto, isso exigiria um trabalho mais extenso. Por ora, creio que basta considerar estas acepções para o que propus no início. Imagino que tenha ficado claro, também, que a ideia de demoníaco sugerida por Freud quase que se torna secundária diante da imensa proporção de desconforto que estas duas narrativas trazem. Além disso, o próprio Satã que aparece no livro de Jó nem deve ser considerado como uma entidade maléfica a despeito do que se pensou na tradição cristã misturando equivocadamente sua figura à da serpente do Gênesis ou à de Lúcifer. 
O trabalho é, enfim, imperfeito e carece de complementos. No entanto, para o futuro, outras anotações poderão ser feitas. As mesmas poderão servir de enriquecimento às que agora delineiam estas impressões que procurei ordenadamente colocar nestes poucos parágrafos. Procurei adaptar algumas sugestões a este trabalho que me foram feitas quando o comuniquei, mas ainda assim carece de maiores alargamentos. 

Referências 
  
1] Gn 30,24; 35,24; 1Cr 2,2.
[2] Jó 1,20. Como neste caso específico, usarei em todas as citações bíblicas deste texto a Bíblia de Jerusalém. Optei, no entanto, por grafar somente as iniciais do nome divino. 
[3] Outros pequenos fragmentos narrativos podem ser encontrados. O mais significativo está em 32,1-6.  
[4] Um trabalho que sugere o aprofundamento destas idéias é o de Betty B. Fuks: Freud e a Judeidade, particularmente o capítulo terceiro onde ela desenvolve com bastante clareza o tema do exílio e do estrangeiro. Fica evidente que essas duas noções mencionadas aqui carecem de uma cuidadosa investigação porque são caras a todo o panorama da Bíblia e perpassam suas linhas como indicador preciso de uma relação Homem-Deus, Homem-natureza, Deus-Homem, Homem-espaço. 
[5] Pode-se concluir, portanto que Freud talvez esteja usando a Luther Bibel (1912) with codes. É a única que traz Heimlichen nestas passagens além da Luther Revidierte de 1545. A versão revisada de Lutero de 1984, já volta ao texto hebraico. 
[6] Para maior clareza dos significados destes verbos, além dos que apresento aqui, veja-se: WILSON, Marvin R. Nakar; WOOD, Leon J. Zur. In HARRIS, Laird R. (Org). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998. 
[7] O texto completo da Bíblia seria: “Und nannte ihn den heimlichen Rat. Und gab ihm ein Weib, Asnath, die Tochter Potipheras, des Priesters zu On. Also zog Joseph aus, das Land Ägypten zu besehen”. Este é o texto da Luther Revised, versão eletrônica do software Bible Works 6.0. 
[8] Jó 1,8. Imagino que seja muito cedo, ainda, para associar este Satã ao clássico Satanás. Isso fizeram alguns e, creio, de modo precipitado. Aqui não estamos diante de um ser maligno, mas de uma personagem literária importante no desenrolar desta trama. Identificá-lo com a serpente do Gênesis ou com o dragão do Apocalipse é igualmente estranho. A meu favor, veja-se TERRIEN, 1994, p.65 e BROWN, 2007, p. 928. 
[9] A Bíblia de Jerusalém não é muito precisa nessa tradução: “Ele afastou de mim os meus irmãos, os meus parentes procuram evitar-me”. Ela segue de perto o texto francês: “Mes frères, il les a écartés de moi, mes relations s'appliquent à m'éviter”. 
[10] Jó 2,9. Na verdade a palavra hebraica é “abençoa”. Está claramente fora de contexto, mas por razões teológicas o narrador bíblico evita colocar uma maldição perto do nome de Deus numa frase. 
[11] Outro exercício interessante, mas que ultrapassa as fronteiras do que proponho aqui, seria analisar a relação dos “amigos de Jó” com ele e a reflexão que eles fazem sobre o que se abateu sobre o desgraçado personagem.  






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